“O conjunto do mundo é Deus sendo”

Agostinho da Silva


segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

REAL... IRREAL... SURREAL... (289)



Sagração da Primavera, Autor António Tapadinhas
 Acrílico sobre Tela 60x100 cm



CEREJEIRAS

Foi com o raiar de um ensolarado dia
Em meu jardim
Que as primeiras flores das duas cerejeiras
Se abriram

Uma rosa de soslaio lançou seu olhar
Enamorou-se
Outras rosas ficaram com ciúmes

As pétalas das viletas enrubesceram
Outras flores
Puseram-se então a ganhar vida

Meu mundo
A partir daquele instante
Transformou-se
Fez-se Primavera em pleno Inverno

As flores ao despertarem
Deram à minha amada
Encanto e viço redobrado

Sonoramente Vivaldi
Invadiu todos os aposentos

Luz e Sons
Perfume e Vida
Esperanças redobradas

A Felicidade existe

Acredite


Poema de Jorge A. G. Lemos
Selecção de António Tapadinhas


sábado, 20 de janeiro de 2018

Editorial


"NEM EU..."

Luís Santos

Fazemos por aqui um pasquim de seu nome Estudo Geral, como se vê, que faz a terna idade de 8 anos, no dia vinte e três do corrente mês, uma aventura literária, artística, multimédia. Quanto ao oito, o melhor é deitá-lo para lhe dar a sua fiel expressão matemática de infinito. Sobre o pasquim não tem mais vontade de se afirmar como revista, embora não o descuremos em meios mais formais que ainda precisam desse tipo de títulos.

Este Estudo Geral mantém-se, assim, como uma espécie de ancoradouro espiritual, digital, lugar de (re)encontros, de forma a que ninguém se disperse muito, ou se esqueça de vez que existe uma ponte, um espírito santo, que nos ajudará a passar para a outra margem da vida, onde o triunfo do cântico dos cânticos nos assista.

Acordámos hoje de manhã, no meio dos cansaços dos alunos, a pensar se é coisa que valha a pena, o cansaço, com essa clara ideia de que parte de nós já vive nesse reino encantado do Paráclito. Uma luz no meio da escuridão. Assim seja.

Sobre a Ilha dos Amores e do Dinis, e dos nossos sonhos às cores, tudo transformado em imagens e palavras de mil e um autores. Somos gratos.

A Natureza, essa bola colorida, está nas nossas mãos. Dê voz ao silêncio, se faz favor.


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

CONVITE



Meus queridos amigos e amigas, aproveitando o presente correio para desejar sobre vós a benévola coroação de uma cornucópia dourada neste ano a abrir, venho convidar-vos para a apresentação do meu próximo livro, no dia 20 de Janeiro, sábado, pelas 15.00, na sala Araújo Ferreira da Escola de Medicina Tradicional Chinesa, na rua D. Estefânia, nº 173, em Lisboa. 
O livro, António Telmo, Literatura e Iniciação, editado pela Zéfiro na colecção Tomé Natanael, será apresentado por António Carlos Carvalho.
Nesta sessão, cuja abertura será feita pela  professora Deolinda Fernandes, directora da Escola, que com o filósofo privou, será também lançado o VIII volume das Obras Completas de António Telmo (Rui Lopo e Renato Epifânio), ocorrerá uma conferência sobre António Telmo pela escritora, poeta e ensaísta Maria Estela Guedes, bem como leituras de ambos os livros pelas escritoras/poetas Ana Paula Costa, Maria Azenha e Luísa Sousa Martins.
Com um caloroso abraço, antecipo o dia e a alegria do novo encontro em torno do iluminado e iluminador pensador da razão poética.

«António Telmo é uma espécie de semente de felicidade, algo que germina e germinará, pelo conhecimento, pela ética, pelo arrojo, pelo testemunho, pela Presença, pelo brilho elevado até na sombra. Se tentar descrever o que sinto desde sempre quando penso nos livros dele, é muito parecido com o sentimento que em criança (e recordo-me muito bem) dedicava aos brinquedos mais sonhados, mais desejados, como objectos mágicos. Algo assim: se tud...]o falhar existem estes livros, existe este pensamento. 
​[​...]
Fica arrumado que o sol pertence ao mundo das coisas sensíveis. E não nos ocupamos mais disso.
Mas quando António Telmo afirma: «Seja qualquer ser sensível, o sol, por exemplo», já é outra coisa. O sol já não é distante, já não provoca queimaduras, já não morreu, já não é uma estrela inalcançável. É um menino perdido no céu, solitário de tanto brilho, incompreendido de tanta distância, é antes a personagem dos poetas, o filho das mães, o pai dos filhos, o nosso rosto no universo, a máscara da nossa sombra, o cintilar das nossas lágrimas em arco-íris, o nosso coração de pedra em formato de luz. Enternece. Se pudéssemos pegar-lhe ao colo, falar-lhe-íamos como ao nosso amigo animal, como ao nosso boneco de dormir, como ao nosso filho quando bebé, como à criança que nós próprios fomos. É um ser sensível, o sol. Como nós somos e andámos a esconder de nós mesmos. Obrigada, António Telmo, hoje talvez escondido atrás do sol a rir deste meu delírio. Muito se aprende com a Gramática Secreta…» (do livro)

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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Comer ou não comer


por Luís Gonçalves Eu respondo por mim da seguinte forma, se for para comer mal eu prefiro não comer, se for para obter saúde máxima também prefiro comer tão pouco que quase roça o “não comer”. A saúde é de facto o que temos de mais importante em nossas vidas… certo? Vamos começar isto com um pensamento organizado e daí pergunto o seguinte, qual o combustível mais importante para o corpo humano? A resposta é, “Ar”. Sem comer o que quer que seja podemos sobreviver muitos dias e mesmo muitas semanas, quando decidimos deixar de beber podemos aguentar vários dias (várias semanas se devidamente preparado) mas quando decidimos deixar de respirar, então… restam-nos apenas alguns minutos de vida. Saber respirar e aprender vários exercícios de respiração é chave essencial para poder viver bem melhor… o corpo depois de voltar a respirar melhor e de estar rico em oxigénio e outros gazes que compõem o ar, fica como um carro de F1, ao passo que antes desta mudança seria equiparado a um corta-relvas… (é de facto uma diferença colossal). O corpo Humano necessita de facto de moderação e de respeito pela abstenção de comer totalmente ou parcialmente, ou seja jejuar. Jejuar é tema para vários livros e muitas centenas de milhares de palavras, por isso, encurtando a coisa para uma frase apenas, direi o seguinte, “apenas duas refeições por dia e um dia de jejum moderado por semana e a vida muda por completo”. Alimentos venenosos: todos aqueles que criados pelo homem, não têm lugar na natureza e foram forçados à existência, como por exemplo, a cenoura, a soja, a seitan, o tofu, a cassava, quase todos os feijões que conhecemos, vários tipos de batata, etc… e os demais empacotados e enlatados que foram aperfeiçoados em laboratório e depois passam para a prateleira do super-mercado, pacotes de cereais, chocolates, pastelaria, bolachas, batatas-fritas, etc… Animais na dieta do ser Humano: O corpo humano não necessita de ingerir tecido muscular, sangue e plasma em “segunda mão”, para além de sempre que quando comemos animais vêm à boleia uma série de parasitas que se vão alojar no corpo por toda a parte desde o cérebro até aos intestinos. Os animais para além de estarem completamente medicados com antibióticos, hormonas, anti-fungicidas, entre outros, estes podem estar doentes no momento que se dá a sua morte para poderem viajar até ao prato do degustador. Não é nem nunca foi uma boa opção. Frutas e o paraíso: Todos nós gostamos de coisas doces, pena que vamos logo para o mais barato, o mais publicitado em todos os media e estes são, os chocolates, as pepitas, vários tipos de sintéticos que nos invadem a casa através da televosão, revistas, internet e mais grave, quando eles entram pela porta de casa dentro dos sacos das compras… o que o corpo realmente quer é o doce que está nas frutas maduras o tal carbono orgânico como Arnold Ehret lhe chama a glicose como a ciência moderna lhe chama, este sim é o segundo alimento preferido das células e dos tecidos musculares ao invés da cultura da proteína que tanto nos é imposta. Plantas e ervas: Este é o meu tema de eleição e tenho tanto para dizer que vou apenas dizer muito pouco pois quero deixar lançar curiosidade acerca destes elementos mágicos… As plantas são a alta tecnologia do planeta e por isso são elas a principal fonte cura para todas as doenças, pois quando algo está mesmo mal temos de ir a correr buscá-las e seguir as suas leis para uma cura efectiva e agradável (nada agressiva como os fármacos sintéticos). Dente de leão, Astragalus, Labaças, trevo vermelho, Baga da palmeira Anã, Sarsaparilla, raiz de Bardana e tantas outras… Estes são elementos naturais completos e altamente eléctricos!

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

O LUAR


Olha que bonito luar vai esta noite pelo céu. 



E hoje os alunos continuaram os exercícios em torno da nova palavra janela. 



Liberto e sem condicionantes, Kumba Ialá regressou de imediato à política activa na Guiné-Bissau e já manifestou vontade de concorrer às próximas eleições. 
Deposto ainda não há meia dúzia de meses por um golpe de estado militar, pode agora voltar uma vez mais ao poder pela via eleitoral. 
Dessa forma fica tacitamente consagrado o direito das forças armadas interferirem nas opções do poder político. 



Pois para não ficarem atrás, os portugueses levam às primeiras páginas as picardias entre Mário Soares e Paulo Portas, com este a desafiar aquele para um debate sobre ideologias e na resposta a ouvir o mais sábio argumento das dragonas que lembra ao desafiante que o desafiado só discute com personalidades de grande gabarito. 

É caso para dizer que sim senhor, o que a sociedade portuguesa mais precisa neste momento é, justamente, uma boa querela ideológica. 
Já estou a imaginar a aula magna da reitoria da Universidade de Lisboa, repleta pelo escol intelectual e político de ouvidos abertos e narizes no ar, bebendo as palavras e pensando e a imprensa divulgando e comentando, não nos podemos esquecer dos comentadores que, para a abertura nada menos que uma sinfonia feita por encomenda especial para o evento. 
Portugal é a metáfora com que podemos significar a fantochada. 



Enquanto isto na Grécia, a Nova Direita ganhou as legislativas com o que regressará ao governo. 
É mais um episódio do vendaval que tem arredado os socialistas do poder, na Europa. 



E agora 
a Lua 
parece uma pérola 
no fundo 
da sua auréola roxa. 


Alhos Vedros 
 08/03/2004

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

REAL... IRREAL... SURREAL... (288)



Dirty Champagne, Don Glen Vliet, 1995
Óleo sobre Tela, 97.79 x 118.11 cm 


Don Glen Vliet, também conhecido como Captain Beefheart foi um pintor e músico americano, que nasceu em Glendale, a 15 de Janeiro de 1941 e morreu a 17 de Dezembro de 2010.
Captain Beefheart foi um visionário, um génio da música, também escultor, pintor, poeta e filósofo.
"Percebendo o universo com olhos mágicos e alegres, ele expeliu pela janela as abordagens convencionais da linguagem e da música, colocando em seu lugar um espantoso sistema concebido por ele. Sua música de forma assustadoramente irregular, junta suas narrativas rurais do folk com vodoo, livre associação, Dada e um espectro de som que vai da música americana de Charles Ives, Jazz e blues ao som do deserto do Monjave onde vive. Beefheart é um homem sem limites de imaginação e espírito heróico e deve-se a isso os sete álbuns próprios que ele fez."
in Wikipedia

Selecção de António Tapadinhas

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Alimentos que regeneram o ADN :)


* Em tempo de frio é preciso aumentarmos as nossas defesas (Sistema Imunitário que é quem dá a "resposta" em qualquer doença).

* É aconselhável aumentar a dose de vit C (que não tem nenhuma contra-indicação e fortalece o Sistema Imunitário sendo um poderoso aliado na prevenção e combate de qualquer doença desde as constipações ao cancro) para 1 a 2 gr/dia (no mínimo). Escolha, de preferência, uma, de boa qualidade, vit C + Zinco para melhor absorção (evite as efervescentes). ~ Use e abuse da vit C!!! ~
nota importante: Evite igualmente comer citrinos em excesso, sobretudo laranjas,  pois corre o risco de enfraquecer o organismo (excesso de Yin) e não obter a quantidade mínima necessária de vit C (para obter 1 gr teria que espremer 10 kg de laranjas e beber logo de seguida :) )
// Dê preferência ao limão, à lima e à toranja. //

* Coma vegetais verdes a todas as refeições (ricos em vit C e cálcio, entre outros nutrientes).

* Este artigo resulta de um estudo feito em alguns alimentos para saber quais reparam o nosso ADN!!!  São eles:
Limão, dióspiro, morango, brócolo, aipo, e maçã. Todos eles conferem protecção ao ADN, mesmo em doses baixas.O limão, por exemplo, elimina os danos causados ao ADN em cerca de um terço. É por causa  da vitamina C? Não. Retirando a vitamina C do extracto de limão este não perde o efeito protector. No entanto,  se ferver o limão por 30 minutos, o efeito protector desaparece (e perdem-se todas as vitaminas que, como sabemos, são muito voláteis e desaparecem de imediato por acção do calor).


todo o artigo aqui:
https://www.care2.com/greenliving/which-fruits-and-vegetables-boost-dna-repair.html

Um ano com Boa Saúde! :)

~Paz&Luz~
Paula Soveral 

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Un total de 80 oliventinos ya cuentan con su documento de identidad portugués


Diálogos Lusófonos
dialogos_lusofonos@yahoogrupos.com.br

Laura Gonzalez: Ser natural de Olivenza, por parentesco, ascendencia o nacimiento, hoy es lujo y también algunos de los requisitos que deben cumplir los interessados en obtener la doble nacionalidad, la española y la portuguesa (...)

Mauro Moura: A RTP o ano passado fez uma reportagem muito interessante a respeito dos oliventinos buscando sua origem portuguesa, tanto nos documentos quanto no aprendizado da nossa língua.Seria mais interessante ainda se meu antepassado oliventino também fosse um sefaradita, iria causar uma confusão danada na Conservatória.

E Olivença está para Portugal como Colônia do Sacramento está para o Brasil. O território está perdido, porém a ligação histórica intrínseca mantém-se viva.

Margarida Castro: E eu julgo que é nesta interpretação da origem portuguesa, que uma amiga brasileira pode conseguir a nacionalidade portuguesa... Explico-me melhor. O avô dela era português e veio para o Brasil. Casou com uma  manauense em Manaus e  o filho mais velho deles nasceu em Manaus. Depois, em 1912 foram para Portugal, Vila Real, onde tiveram mais 4 filhos. Portanto tiveram 5 filhos. O único que regressou/veio para o Brasil em 1937, foi o mais velho, o pai de minha amiga.......... E ele estudou na Faculdade de medicina, do Porto, mas não terminou o curso. Os outros irmãos (tios da minha amiga) ficaram em Portugal , assim como os pais. O pai dela nunca requereu a nacionalidade portuguesa..E a minha amiga visitou os tios em Portugal mas a partir de 1974  perdeu o contato com eles. 
Com as informações que ela me foi passando, pouco precisas,fui escrevendo para a Direção Regional dos Arquivos de Vila Real, e agora eles encontraram a certidão de 
nascimento do avô, nascido em 1870..Vamos requerer! E acredito que vamos conseguir as 
certidões dos tios dela. Por outro lado, ela e o marido, sempre tiveram uma ligação de afetos
com Portugal, o que acredito pode ser comprovado. 
Ela está um pouco na dúvida, mas eu estou nesta : não desista!
Porque a ligação histórica intrínseca mantém-se viva!

Veja a foto que anexo, da família desta amiga , em Portugal, lá por 1935: avós , os tios 
e o pai  dela,  o mais velho, ao lado do pai.

É claro que ela pretende a nacionalidade portuguesa que permita aos filhos requerer 
a nacionalidade!

Será que consegue? Se os oliventinos conseguiram!


Mauro Moura: Como encontraram o registo do avô paterno dela em Vila Real, portanto a sua amiga terá de solicitar a nacionalidade por atribuição e, após a dela, a dos filhos.
 A nacionalidade é passada até os netos, portanto os filhos da sua amiga só terá direito depois que ela conseguir a nacionalidade portuguesa.

Fiz a brincadeira porque seria engraçado, meu antepassado quando viveu foi em Olivença e hoje é a espanhola Olivenza, daí teria de fazer dupla comprovação, creio eu.

Margarida Castro: Ela só consegue a Nacionalidade que pode passar para os filhos , se conseguir seguir o  princípio que foi reconhecido para os Oliventinos e Sefarditas. Conseguir provar os afetos , ultrapassando o "pormenor" de que o pai nunca solicitou a cidadania portuguesa...

Mauro Moura: É porque entendi que o avô dela teria sido registado em Vila Real, daí a ligação direta a Portugal.
Mas com os registos dos tios em Portugal e comprovando a relação de afeto, creio que com boa afirmação e documentação conseguirá a nacionalidade portuguesa.

Margarida Castro: O avô dela era português e casou com uma cabocla de Manaus. Depois de terem o 1º filho, o pai da minha amiga, eles foram para Portugal, em 1912.Ainda voltaram para o Brasil em 1917, mas por ano e regressaram a Vila Real, onde tinham duas Quintas. Tiveram mais 4 filhos, em Portugal.E o pai dela voltou para o Brasil, em 1937, onde ficou para sempre. Eu o conheci! 
Mas a lei da Nacionalidade permite aos netos requererem a nacionalidade portuguesa, mas o pai teria que ter requerido a nacionalidade portuguesa! 
A opção seria conseguir a naturalização, mas sem a possibilidade de passar para os filhos, esta situação. 
Mas a lei pode ser "interpretada" e eu perguntei a um advogado!Ele disse que sim, explicando os tais afetos com Portugal, os tios portugueses com os quais ela manteve contato, e que ela visitou várias vezes Portugal.......
Julgo que a lei para os sefarditas  e a que permite a nacionalidade portuguesa para os oliventinos, tem o mesmo fundamento: a nacionalidade de familiares, a relação com a comunidade portuguesa!

É a "construir a argumentação" para  solicitar a nacionalidade , que julgo posso ajudar. De contrário ela desiste desta tentativa, porque a naturalização não faz sentido para ela!

Mauro Moura: Bem, Margarida, houve uma alteração recentemente na lei de nacionalidade portuguesa e ela cabe aos netos.
Sendo a sua amiga neta de um português, se eu não estiver enganado, resolve-se a questão.
Mas tudo também sempre depende da boa interpretação da dita lei.

Margarida Castro: Mas não se resolve sem a tal argumentação! Porque o pai se distraiu e morreu!

Mauro Moura: Creio que sim, ela demonstrando que ainda tem alguns tios e vários primos facilita essa argumentação.
Creio que o pai não tenha vacilado, simplesmente não sentiu tal necessidade, haja visto que uns tempos o Brasil 
fica essa bagunça que está e em outros Portugal se apresenta confuso.

Margarida Castro: Foi isso que aconteceu, porque ele sempre sentiu a proximidade com Portugal , onde frequentou até o curso de medicina e residiu, mais de 25 anos!  E  era sempre muito amável, conosco! Só que agora de tanto conversar com a filha , é que eu percebi, os antecedentes!

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Fim-de-semana cansativo que assim o obrigou a necessidade de vazar o quarto da pardalada. 

Céus, tanta tralha que aquelas alminhas têm! 


E nós temos a casa bem organizada e bem arrumada, caso contrário, a confusão seria muito maior, mas o guarda-roupa levou uma tarde para a transferência ordenada que possibilitará um uso que seja o mais próximo da normalidade. 
Contudo, já percebi que vamos ter o lar em bolandas nos próximos tempos. 

Esperemos que isso não perturbe a tranquilidade familiar em demasia. 


Salvou-se o fim da tarde deste Domingo, com um encantador passeio de bicicleta, uma vez que o pai se presenteara com o seu próprio velocípede na manhã do dia anterior e assim, pela primeira vez, toda a família deu ao pedal pelos campos da lezíria que já muito se alegra de tão florida que está. 



E a Matilde já lê. 
Agora parece estar a achar graça à descoberta da capacidade de ler. 

“-Não sei ler esta letra.” 
“-Lê-se guê.” 
“-Agosto.” 

Palmas para a Matilde! 



Pois na sexta-feira, entre a hora da patinagem e a aula de música, os alunos aprenderam uma nova palavra, janela, sobre a qual realizaram a ficha de trabalho de casa. 



Em Espanha, o Partido Popular voltará a ganhar as eleições para as cortes. 
Resta saber se conseguirá a maioria absoluta. 


Enquanto isso, opositores e simpatizantes do anterior Presidente, o Senhor Aristide, balearam-se e esfaquearam-se em confrontos que se saldaram por muitas mortes e feridos pelas ruas de Port-Aux-Prince. 



Agora vou ver a “Missão a Marte” que passou esta tarde na SIC. 
É um bom entretém para que o corpo físico repouse no sofá, à espera de mais uma semana de trabalho. 


Alhos Vedros 
 07/03/2004

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

REAL... IRREAL... SURREAL... (287)



Ode Triunfal de Fernando Pessoa / Álvaro de Campos
Desenho de Pedro Sousa Pereira  

Selecção de António Tapadinhas

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

A ARTE PERVERSA DE ADULTERAR CRIANÇAS


Histon 2 JAN 2018

por Abdul Cadre

Retorcendo a etimologia, não com estas palavras, mas com este sentido, dizia a brincar Agostinho da Silva que um adulto se obtém pela adulteração de uma criança. Embora sem suporte etimológico, isto é bem verdade. A forma como educamos as crianças é de uma grande perversidade: cria-se um modelo de conveniência e comodidade para os adultos, obriga-se a criança a aderir a esse modelo, diz-se-lhe que é o caminho, a verdade e a vida, que o modelo não só é a verdade como é o Bem. A todo o momento se julga a criança, não pelo que ela é, mas pelo que se espera que seja, assim a alienando da sua natureza profunda para que corresponda ao artifício do modelo.

É evidente que isto que digo respeita apenas aos sectores não segregados da sociedade, mormente à chamada, mas mal definida, classe média, porque se falássemos das crianças dos bairros degradados, não era de perversão, mas de crime colectivo inqualificável que falávamos. Crime de que todos somos culpados, em graus diversos, certamente, mais pela apatia do que pela acção, sendo dispensáveis as desculpas tolas e repudiáveis, as atitudes  dos hipócritas que se permitem atribuir aos miseráveis a culpa da própria miséria. Falaremos disto em outra ocasião.
Prossigamos: quando falo criticamente de adesão a modelos, não pensem que habito numa nuvem, sei bem que o facto de vivermos em sociedade implica a criação de modelos, tendo em vista a convivência pacífica e progressiva dos indivíduos. O que digo, o que pretendo deixar claro é que não somos qualquer modelo e que todos os modelos que se criem se devem submeter ao princípio do falseável, isto é, são de serventia, e devem ser invariavelmente mutáveis e provisórios. Devem ser criticados a cada momento e substituídos por obsolescência. É falsa a crença na segurança pela permanência.

A generalidade das patologias de angústia que infectam a sociedade tem a sua génese na forma como são educadas as crianças: pede-se-lhes que acreditem no exterior, que é o bem, do mesmo modo que é o bem o que é cómodo para os adultos, que armazenam os filhos em creches e em centros concentracionários de castração mental, a que chamam escolas, para poderem ir trabalhar em actividades alienantes, onde se atropelam e rasteiram uns aos outros. Chamam a isto competitividade.

Como adulteramos as nossas crianças? No dia a dia, pela catequisação do modelo e, sendo o modelo mercantilista, pela chantagem, pela compra e pela venda. Portas-te de acordo com o modelo e és um menino bonito, que de contrário és feio e já não levas a playstation. Depois, vem a traição: se bem dispostos os pais, há simulacros de afecto; se mal dispostos, a playstation não vem, mesmo que o menino tenha fingido ser bonzinho. 

Mas tudo poderá vir em fartura se o menino ganha novo pai, porque dois ou três pais é o que está a dar. O pior, as mais das vezes, está no desvio de atenções e afectos quando da mãe há namorado novo e as birras do menino se tornam insuportáveis.

Meninos que não encontram segurança no modelo (ou nos modelos), onde o modo de ser é a perturbação e a angústia de identidade. A angústia do abandono e da solidão.

Aquilo que deveria constituir a base do ser – o ententendimento, a energia e a afectividade – desmorona-se. Não há entendimento possível quando tudo é o contrário de tudo. Nenhuma energia mental ou física pode colmatar a insegurança catastrófica que gera a impotência, perante um exterior tornado um inimigo implacável. Não há afectividade nos seres que perderam o seu centro natural – o seu verdadeiro ser – em troca de um centro artificial que é uma mentira: o modelo traído.

ABDUL CADRE

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018


“Angelicamente Entre Reinícios E Começos Oiço Absorto E Distraído Os Sons Do Céu…”

Recomeço tudo de novo com novos e velhos começos
Arrisco ultrapassar o risco alucinogénio sem noção disso
Renovo o fundamental princípio filosófico do usual conceito dos inícios

Penso coleccionar paraísos sem fim cheios de raridades
Revolvo completamente o solo ao advir em busca do mistério
Incido persistentemente em pontos finais que nunca hão-de acabar

Entro por engano num império misto de formigas e térmitas
Perco-me no assunto e na falta gravíssima de planificada entropia
Vivo mecanicamente em erro e peco por defeito e por evidente contrafacção

Enfio-me pelos chamados canais espaciais relativos de minhoca
Meto os dedos nos tuneis esburacados por uma civilização desconhecida
Cavo trincheiras ao nível da própria epiderme nuclear e do substrato capilar

Negligencio sinais feitos de uma sinalética que ninguém reconhece
Farto-me de louvar louva-deus humanos e/ou aqueles do tipo insectífero
Monto à toa puzzles labirínticos arquitectados por tenebrosos pensamentos

Alegadamente mordo sem compaixão a língua vez por outra
Regulo a temperatura febris ideias perdidas usando um botão tosco
Tento não sufocar com o excesso de idiotice e desnecessária fuligem aérea

Limpo com lixivia da face lisa o crescente ambiente de ferrugem
Tapo os sentidos no sentido contrário e nos fóruns da vida emotiva
Deixo de ser palhaço do circo cerebral no seio da sucata e do ferro-velho…

Viro-me para o som da música de um dos grandes clássicos angélicos tocado a violino…

Escrito a 1 de Janeiro de 2018, em Luanda, Angola, por Manuel (D’Angola) de Sousa, por ocasião do primeiro Dia do Ano Novo e com Votos de Bons Augúrios para todos os Amigos/as e Relacionados/as, em Angola, nos Países Lusófonos e pelo resto do Mundo…, em prol dos Direitos Humanos, da Democracia, da Livre Economia de Mercado, Ensino Moderno, Protecção Ambiental da Natureza e dos Animais, Desenvolvimento Tecnológico e Emprego para todos…

Viva a Humanidade e a Reconciliação, a Compreensão e a Paz Mundiais…

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Obras e bolandas. Medições e mais medições a suportarem as decisões. 
Faremos o quarto das miúdas no sótão que incorporaremos no piso inferior através da divisão que actualmente desempenha essa mesma função. Aí, se bem que um espaço de passagem, aproveitaremos para fazer uma pequena salinha. 

Mas estas são atribulações que nos remetem o ócio para muito tarde. 

Amanhã será o dia do electricista fazer as marcações da instalação. 



Os alunos continuaram a copiar frases e palavras e sílabas. Mas também fizeram contas. 



E por hoje só quero registar um anacronismo que pensava não ser possível escutar a quem quer que fosse. 
Em entrevista a um jornal local, o actual Presidente da Câmara Municipal da Moita, confrontado com a pergunta se pensa numa recandidatura, deu a resposta que transcreverei na íntegra. 
“-Não penso nisso e estou sempre a pensar. Como sabe é uma decisão que não me compete a mim, compete à estrutura do meu partido. Eu estou aqui por vontade do Partido Comunista Português, estou aqui num projecto, estou disponível com todas as minhas forças, como estou sempre em tudo onde estou envolvido. Se o meu partido entender que eu devo ser o que for, para as próximas eleições, isso será também acompanhado por mim. É uma discussão de colectivo, não é uma questão do João Lobo sozinho. É lógico que será sempre aquilo que o João Lobo quiser, mas é uma discussão colectiva. Estou disponível para aquilo que o partido entender.” (1) 

Depois de uma destas, nada mais há a dizer. 

Até amanhã, então. 


Alhos Vedros 
  04/03/2004 


NOTA 

(1) Lobo, João, ESTOU DISPONÍVEL PARA AQUILO QUE O PARTIDO QUISER, p. 3 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Lobo, João, ESTOU DISPONÍVEL PARA AQUILO QUE O PARTIDO QUISER, Entrevista a Marta Luísa Silva, In “Jornal da Moita”, nº. 195, de 26/02/2004

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

REAL... IRREAL... SURREAL... (286)


La Vie en Rose, Autor António Tapadinhas, Dezembro 2017
Acrílico sobre Tela, 70 x 50 cm


Porque hoje é o primeiro dia do ano, quero desejar a todos os fiéis amigos
do Estudo Geral, em todos os locais do planeta, um 2018 "en rose" 


Selecção de António Tapadinhas


domingo, 31 de dezembro de 2017

EG 95


ESTUDO GERAL
Dez./2017           Nº95


"Sem palavras, nada se perde."
(Paulo Borges)


Sumário

A Língua Portuguesa pintada e descrita
Agudo Silvo De Consciente Solicitação De Perdão Atrasado E Ascenso
3.     José Flórido
Um Conselho Superior de Cultura…
Um exame da consciência
A poesia feita uma dança
Conto (1º lugar nos Jogos Florais de Aurpicas, Alcácer do Sal, 2017)
Fotografia com luz própria
Real… Irreal… Surreal…
O estudo feito um diário, às terças
Conclusão de uma tese



---------------------------------Fim de Sumário----------------------------------


sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Um Agostinho da Silva



Pintura de fundo da capa: "Flor do Lácio", gentilmente cedida por Kity Amaral.

SANTOS, Luís Carlos dos (2015) Agostinho da Silva: Filosofia e Espiritualidade, Educação e Pedagogia (Conclusão, tese de doutoramento). Vila Nova de Gaia: Euedito, pp.307-325)

Conclusão
1.
Depois de uma sólida formação no ensino secundário, Agostinho da Silva inicia o seu percurso académico no ensino superior na Faculdade de Letras do Porto. Começa por fazer estudos em Românicas, mas acaba por mudar para Filologia Clássica, sendo nesta área que vai consolidar a sua formação científica.
Tendo concluído a sua formação inicial com irrepreensível êxito, inscreve-se logo em seguida no Curso de Doutoramento fazendo a sua investigação no domínio das civilizações clássicas, numa reflexão crítica a Spengler, em tese intitulada O Sentido Histórico das Civilizações Clássicas. Quando termina a sua tese, em 1929, com 23 anos de idade, Agostinho da Silva tinha adquirido uma formação sólida nas culturas e autores clássicos, o que vai determinar a sua produção científica pós-tese.
Embora desde muito jovem, ainda antes de ingressar no ensino superior Agostinho tenha manifestado gosto pela produção literária e política que ia publicando pelo jornal Comércio do Porto, depois de ter entrado para a Faculdade começa a publicar textos de cariz mais científico, sendo de registar, sobretudo, a participação que começa a ter nas revistas estudantis Acção Académica e Porto Académico, mas muito particularmente em A Águia, revista do Movimento da Renascença Portuguesa, onde estão grandes nomes da cultura portuguesa como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, António Sérgio, Leonardo Coimbra, Fernando Pessoa, entre muitos outros.
Durante esta fase, entre o início e o fim da sua frequência universitária, acabámos por dar mais destaque no nosso trabalho às principais influências que foram deixadas, por um lado, por alguns dos seus professores, por outro, pelas matérias que foi estudando e produzindo.
Entre os seus Professores, Agostinho da Silva destaca, principalmente, três nomes que mais o terão influenciado, Teixeira Rego, Hernâni Cidade e Leonardo Coimbra, este último numa fase inicial mais pela negativa, porque para lá da eminência académica e política, entre outros atributos, já tinha sido Ministro da Instrução Pública de Portugal, fundador e diretor da própria Faculdade, antes do nosso autor ser seu aluno, mas o que é verdade é que ele não gostava das suas aulas, tendo até desistido de as frequentar. Ora, como Leonardo lecionava Filosofia, esse terá sido, pelo menos, um dos motivos que fez com que o nosso autor recusasse a aproximação e o gosto por esta ciência, coisa que durou muitos anos. No entanto, através da Filologia Clássica acabou por desenvolver sólida formação nas culturas e autores clássicos e, indiretamente, forte conhecimento dos filósofos gregos, cujo pensamento muito influenciou a sua formação como, de resto, se pode testemunhar ao longo de toda a sua vida pela forma como amiúde se lhes vai referindo.
Em Sócrates encontra o livre-pensador aliado a uma rígida disciplina. Um filósofo que ousou pensar para lá do que permitia a democracia ateniense que, todavia, tinha limites na sua tolerância filosófica, pois que não deixou de o condenar a um trágico fim. Mas o que mais interessa reter em Agostinho sobre Sócrates, Mestre de Platão, é a sua determinante filosofia na busca da verdade através da fina ironia que usava com os seus interlocutores sofistas e a sua “demagógica” sabedoria de então. Para lá da boa capacidade de elaborar um apurado pensamento lógico, a Sócrates interessava-lhe sobretudo o apuramento da verdade. Ou melhor, que cada um pudesse extrair a verdade de dentro de si, cumprindo a famosa frase inscrita no Templo de Delfos “conhece-te a ti mesmo”. Igualmente, foi esta forma de verdade que cada um pode extrair de dentro de si que Agostinho foi perseguindo ao longo da vida.
Depois o idealismo de Platão. A importância do mundo das ideias, das essências, tão queridas à Filosofia, colocando-as acima de um mundo a cujo conhecimento se possa aceder através dos sentidos. A inteligência acima dos sentidos. O inteligível que permite o discernimento, a sabedoria, com que se deve governar a cidade. A ideia de que no topo de uma pirâmide hierárquica política capaz de melhor governar as gentes deve estar o Filósofo capaz de liderar uma “sofiocracia”. Quer dizer, o poder pelo saber, como o modelo político mais adequado de organizar a cidade. Ou, melhor dizendo, o município, o país, o mundo, para se adequar melhor à terminologia política de Agostinho.
Por outro lado, essa inteligibilidade que melhor nos permita aceder aos destinos do homem e do mundo, à imortalidade da alma, o que torna indispensável uma organização social que melhor aceda aos mistérios da religião, uma sociedade que permita um rumo iniciático e salvífico aos homens. Uma sociedade que se pretenda perfeita, a “cidade bela” como propunha Platão, terá de se organizar de acordo com as características da alma humana, condição indispensável para que através da sabedoria, da racionalidade, se garanta a justiça, a sua maior virtude.
Agostinho da Silva, amiúde, ao longo da sua obra, ia-se inspirando nalgumas das ideias de Platão, tendo também elogiado alguns dos pensadores neoplatónicos, como Plotino ou Pseudo-Dionísio. Mas de forma alguma desprezou a filosofia do aluno mais famoso da sua Academia. De tal maneira, que para dar maior completude ao “idealismo” de Platão, juntava-lhe o “realismo” de Aristóteles. Uma solução a que se quisesse chegar a partir da filosofia grega não podia ser exclusivamente encontrada a partir de uma explicação inteligível da realidade, era necessário que também a própria realidade, a relação entre os fenómenos, as pessoas, pudessem participar numa melhor racionalização dos fins a atingir. Portanto, o caminho não deve ser feito unicamente das ideias para as pessoas, as próprias relações entre as pessoas também deverão determinar as melhores ideias.
Para além de Sócrates, Platão e Aristóteles, Agostinho da Silva investigou e escreveu sobre outros autores clássicos greco-latinos. Por exemplo, “Pérsio”, texto de 1929, onde Agostinho se refere à relação entre as civilizações grega e romana, ou na razão que se encontra entre a supremacia cultural dos primeiros e a superioridade bélica dos segundos. Ou seja, como embora pela força das armas se consegue construir um imenso império, mas como pela força da filosofia e das artes, se consegue preservar a cultura e colonizar o mais poderoso dos adversários. Por outras palavras, se a força das armas permitiu aos romanos a conquista de um imenso território, no plano das ideias, na cultura, no ensino e na religião, a hegemonia cultural dos gregos manteve sempre largo domínio.
Na vastidão do Império a religião grega vai-se sobrepondo à religião romana. Ao poder do amor (Eros) entre Zeus e Afrodite vêm juntar-se uma infinidade de deuses e deusas que constituem o panteão grego.
         Na Grécia Antiga, tal como acentua Agostinho, o culto das divindades era igualmente feito pela coletividade inteira. Era fundamental que se estabelecesse contacto com os deuses. Nos oráculos, pela adivinhação ou pela profecia, nas festividades em honra de Elêusis ou Dioniso, procurava-se a purificação ritual de toda a coletividade. Processo de iniciação em que se pretende almejar beleza e alegria, onde se contemplam os deuses e se acede ao segredo da vida. Supremo objetivo, amor dos deuses, amor aos homens.
   Esta relação entre organização social e organização religiosa é fundamental no pensamento de Agostinho. E em 1930, quando escreve “Religião Grega”, o nosso autor influenciado pela cultura helénica revela um pendor marcadamente neoclassicista em que o religioso e o social se fundem, princípio que dá como fundamental para uma ideal organização política.
   Mas regressando às influências filosóficas que Agostinho trás da Faculdade talvez tenha sido Leonardo Coimbra o que, entre todos os seus professores, mais profundamente tenha marcado a sua obra. Quando Agostinho no início da década de 40 escreve dois ensaios, “Cristianismo” e “Doutrina Cristã”, onde faz a apologia do cristianismo primitivo que lhe valeu forte polémica com alguns dos representantes da Igreja e, por consequência, aumentando a antipatia da classe política dominante, e até do próprio Salazar, é certamente no autor de “A Dor, a Alegria e a Graça”, onde se podem encontrar as maiores correspondências ideológicas com esses dois textos. E quando enaltece o espírito dessa prática cristã e a liga aos movimentos libertários, anarquistas, da época, e, algum tempo depois, quando assume uma postura mais próxima do catolicismo, é certamente em muitas das linhas escritas por Leonardo que o nosso autor se revê.
         Um outro filósofo que também muito terá influenciado Agostinho da Silva foi António Sérgio. Quando o nosso autor deixa de colaborar com A Águia e passa a colaborar com a Seara Nova, corria o ano de 1928, vai reencontrar este filósofo português na direção da Revista, começando a partir desta altura uma crescente aproximação entre os dois, até que se estabelece profícua amizade durante muitos anos, pelo menos, até que Agostinho da Silva parta para o Brasil. Na Seara Nova, em Madrid, em Paris, nas sessões aos sábados na casa de Sérgio, sempre os encontros entre eles se foram multiplicando, muitas vezes debatendo ideias, outras vezes congeminando organizada oposição à ditadura política estabelecida em Portugal.
         De alguma forma, o “racionalismo-idealista” de António Sérgio também está presente em Agostinho, sobretudo, nesta fase da vida do nosso autor. As ideias de Platão e Descartes são fonte de inspiração para os dois, tal como a força da razão também é partilhada como via indispensável no acesso ao conhecimento da realidade. Mas não nos parece que, como sustentam alguns autores, se tenha estabelecido algum tipo de discipulado de Agostinho em relação a Sérgio. Isso mesmo é várias vezes repetido pelo nosso autor, até pelas imensas oposições que encontramos entre as suas ideias.
         Antes de mais, o nosso Professor nunca se considerou um filósofo propriamente dito, mesmo que a determinada altura se torne visível uma grande aproximação à Filosofia. A sua formação de base em Filologia sempre foi constituindo uma barreira nesse sentido. A forma livre, solta, com que ele pensa a realidade e vai construindo as suas ideias, sempre foram um pouco avessas ao seu aprisionamento dentro de categorias científicas, políticas, ou religiosas. No entanto, cremos que se pode dizer que o racionalismo e a mística são categorias entre as quais mais podemos situar o seu pensamento.
         Depois, encontramos em António Sérgio uma filiação europeísta que nunca existiu em Agostinho. A forma displicente com que o filósofo se relacionava com a cultura portuguesa era algo de muito criticável para o nosso autor. Todo o movimento de Reforma que se estabelece no ocidente com o Renascimento, sobretudo no que toca a desenvolvimento político muito à moda das ideias de Maquiavel e à ascensão do capitalismo na sua relação com o protestantismo, é coisa que Agostinho nunca deixa de criticar.
         É nesta fase da colaboração com o movimento seareiro que se começa a afirmar em Agostinho uma nova ideia de Deus, onde bem e mal se tornam inseparáveis, e onde a ideia de Paraíso Divino não é algo a conquistar depois da morte física, antes é obra que os homens devem realizar na terra. Neste sentido, é neste período que uma postura, até aqui, neoclássica de Agostinho, defensora de ideais helénicos, começa a ser substituída por uma maior valorização do amor cristão que ele não encontra entre os gregos.
         Assim, muito embora as diferenças entre os dois pensadores sejam muito substanciais, cremos, todavia, terem existido fortes influências de Sérgio no nosso autor, até pela diferença de idades e pelo natural domínio que o estatuto do filósofo exercia sobre ele. Essas influências, porém, acabam por ser mais nítidas em relação ao ideário pedagógico, onde aí sim, e continuando situados neste período antes da ida de Agostinho para o Brasil, se encontram profundas semelhanças entre os dois. Toda a sólida formação e consequente ação que Sérgio desenvolve na área da Pedagogia, e muito concretamente no Movimento da Educação Nova, chegando a liderar o Movimento em Portugal e, por via, disso chegando a Ministro da Instrução do país, não deixará de muito influenciar o nosso Professor. E quando reparamos no percurso de Agostinho, desde que frequenta a Escola Normal Superior de Lisboa até à intensa dinâmica do Núcleo Pedagógico Antero de Quental que ele próprio criou, toda a investigação e publicação que faz na área da inovação pedagógica realça com muito clareza a procura e a defesa dessa Educação Nova, revelam óbvios pontos de contacto entre os dois.
         Ambos seguem na esteira de Jean-Jaques Rousseau, o filósofo que mais inspira Pestalozzi e Tolstoi, autores que levam à prática as suas ideias. Por sua vez, na esteira destes vem todo um conjunto de pedagogos, como Claparède, Cousinet, Ferrière, Montessori, Freinet, entre muitos outros, a melhor geração pedagógica de sempre no dizer de António Nóvoa, que acabam por construir o Movimento Internacional da Educação Nova.
É no espírito deste movimento pedagógico da Educação Nova que os nossos autores vão avançando, no que diz respeito aos seus projetos educativos. E mesmo quando o Estado Novo praticamente consegue silenciar o Movimento em Portugal, perseguindo, prendendo e torturando, alguns dos seus líderes, Agostinho da Silva encontra-se entre os que na década de 40 ainda resistem, embora também ele acabasse por ser preso e, por consequência, acabasse por abandonar o país.

2.
Agostinho da Silva deixa Portugal em 1944, mas só fixa residência no Brasil em 1947. No país irmão, Agostinho sente-se liberto da pressão que a ditadura em Portugal exercia sobre si e, como ele próprio diz, tudo muda, torna-se outro. Ao chegar ao Brasil, depois de começar a lecionar no ensino superior tudo começou a acontecer, como se o Brasil precisasse de alguém que entrasse na onda da implementação da rede de universidades que era preciso ser criada no país. Durante 15 anos, até perto do início da ditadura militar em 1964, o nosso autor percorre vários Estados do Brasil, e vai lecionar em outras tantas Faculdades, tal como participa na criação de algumas universidades. Rio de Janeiro, Paraíba e Pernambuco, Santa Catarina, São Salvador da Bahia, Brasília e Goiânia, são cidades onde Agostinho leciona e nalguns casos participa na instalação da Universidade, mas também a criar centros de investigação, como são os casos do Centro de Estudos Afro-Orientais, do Centro de Estudos Portugueses, do Centro de Estudos Brasileiros, respetivamente, nas Universidades Federais da Bahia, Brasília e Goiás. É verdadeiramente impressionante, em período relativamente curto, a obra que Agostinho desenvolve no Brasil
         Mas recuemos ao período em que fixa residência no Brasil e passa a lecionar na Faculdade Fluminense do Rio de Janeiro. Neste período colabora também com Jaime Cortesão na Biblioteca Nacional.
Como sabemos Agostinho já conhecia Cortesão de Portugal. Ambos colaboraram com A Águia e a Seara Nova, estiveram juntos em Paris e cruzaram-se nos Encontros de Sábado em casa de António Sérgio, um percurso de vida, de facto, com muitos pontos de contacto. Por fim, no Brasil quando se encontram no Rio de Janeiro, para lá da convivialidade e dos estudos, como vimos, ganham também laço familiar.
Jaime Cortesão encontra-se entre os autores que muito terá influenciado Agostinho da Silva, nomeadamente na sua admi- ração pelo espírito franciscano e na sua prorrogativa filosófica de valorização do ser em detrimento do ter, mas, sobretudo, pela dimensão altamente significativa que reconhece na organização da sociedade medieval portuguesa.
Sempre o comunitarismo medieval português é colocado acima dos novos tempos renascentistas, considerando estes associados ao triunfo de um liberalismo político e à índole de uma economia capitalista que a seu ver, em vez de libertar acabam por escravizar, ambos fonte de dura exploração da mão-de-obra humana e, logo, de pobre dimensão fraterna de vida. Tal como o culto popular do Espírito Santo, instituído no país no século XIII, com seu ideário divino de total abrangência, seja para diferentes credos ou pessoas, em que deuses e homens se sentam juntos à mesa, constitui o exemplo ideal do futuro desejável para o país, para o mundo. Um Deus a que todos podem aceder e onde todos cabem, ou não se pensasse que Deus não é mais que o mundo sendo, não só o homem, pois que Agostinho não subscreve a ideia de um mundo antropocêntrico, em que o homem pode dispor a seu belo prazer dos elementos naturais, desde logo a começar pelos animais.
Numa “Idade do Ouro”, categoria que Agostinho acolhe da filosofia grega para designar um período mais longínquo do mundo, os homens não se alimentavam dos animais. Isso só acontece com a queda, quer dizer, de acordo com o Antigo Testamento, a expulsão do homem do paraíso divino, tempo do mundo em que a humanidade se caracterizava ainda pelo nomadismo e por uma alimentação essencialmente herbívora e frugívora.
Num período mais recente, em que o homem declara guerra à natureza e aos animais, designa Agostinho por “Idade do Ferro” e corresponde já a uma fase de sedentarização humana, em que a agricultura e a pecuária haveriam de trazer a escravização dos animais, mas também da mulher e da criança, onde a educação formal e as organizações religiosas ganham espaço, mas paradoxalmente se vai assistindo à diminuição do sentido do “sagrado”, ao fim de uma anterior “unidade primordial” entre homens e Deus. E muito embora, a perca dessa “unidade primordial” se relacione com o desenvolvimento do mundo, da ciência e da técnica, há-de ser por esse mesmo desenvolvimento que se readquirirá essa perdida dimensão de “sagrado”, sob pena da humanidade se perder por completo se não conseguir lá chegar.
De resto, como sustenta o nosso autor, com o processo de cristianização que o mundo ocidental conheceu na Idade Média voltámos de novo a uma plena intenção de sacralização universal das sociedades humanas, coisa que não era verificável no mundo clássico. Com a expansão ultramarina do século XV e XVI, os portugueses e os espanhóis levam o cristianismo ao mundo, e essa ideia que a princípio dizia unicamente respeito ao ocidente estende-se a todo o planeta. Foi, de facto, um projeto “católico”, ou seja, sagrado e universal, de acordo com o étimo da palavra, esse que os povos peninsulares realizaram.
Mas esta ideia “católica” haveria de ser travada pelo espírito europeu renascentista, protestante e capitalista, a norte, maquiavélico e liberal, a sul. Aqui, a partir da ciência política, ali, a partir da reformada religião que aprova o lucro e dá oportunidade à exploração económica do homem pelo homem. Embora considerando todo este espírito renascentista como uma inevitabilidade histórica, indispensável para o avanço da humanidade, Agostinho não deixa de ser radicalmente crítico dos resultados a que chegámos e mantém acesa a esperança de que o projeto medieval peninsular, então interrompido, avance de novo.
Aliás, de acordo com Agostinho, esse espírito peninsular medieval ter-se-á reaberto de novo em Portugal no século XX, sobretudo, centrado em dois movimentos simultaneamente com- plementares e opostos, como foram a Renascença Portuguesa, e os Seareiros, o primeiro, sobre o signo da saudade, o segundo, sobre o signo da ação.
Por outro lado, essa ideia de “sacralização” do mundo que se desenvolve em Portugal com a Expansão Ultramarina está bem marcada nalguns autores portugueses, como são, particularmente, os casos de Luís de Camões em “Os Lusíadas” e do Padre António Vieira com a sua ideia de “Quinto Império”, ideia essa que é retomada por Fernando Pessoa com renovados contornos.
Como diz Fernando Pessoa, um Império que será o “quinto”, porque fundirá os outros quatro que anteriormente existiram (grego, romano, cristão e europeu), de dimensão mundial e universal, com uma nova religião que sairá do cristianismo, mas que o transcenderá, e que o poeta designa de Paganismo ou Politeísmo Supremo, para utilizar a expressão do nosso autor.
Eis, então, a proposta essencial a que Agostinho chega no Brasil, algures durante a década de 50, que vai defender e desenvolver vida fora. O Império enaltecido na “Ilha dos Amores” dos Lusíadas, preconizado por Vieira e por Pessoa, será um império “católico”, universal, e caracteriza-se pelo advento da Idade do Espírito Santo, o consolador da esperança humana, tal como profetizou o evangelista S. João. Em síntese, o “quinto império”, o império do Espírito Santo, que é de servir e não de mandar, onde se é dos outros em vez de se fazer dos outros seus.
E a esperança é muito forte. Como ele diz, tudo o Consolador com suas línguas de fogo queimará. Tudo se consumirá, capitalismo, socialismo, propriedade, partidos autocratas e escolas. Seremos crianças à solta, plenos de criatividade e perfeitos como Deus, o criador supremo. E, sendo criança perfeita, a todos educará.
         Este Deus consolador é aquele que Cristo revela, a quem Agostinho reza na igreja, mas que não é o Deus das igrejas, antes que as junta todas e paira acima de todas. É um Deus a que podemos chegar se atingida a verdade, se formos perfeitos. Um Deus íntegro, total, paradoxal, tudo e nada, imanência e transcendência, que junta tempo e eternidade, sem separação de bem e mal, de homens e animais, de tudo o que existe. Um Deus que é, antes de mais, inefável e é silêncio, que é alogos e não logos, onde ciência e filosofia, “saudades disfarçadas em raciocínio”, devem ajudar a atingir, mas não podem definir.
Como diz Romana Valente Pinho, “É a vivência do Brasil que permite ao nosso autor conceber um ideal ecuménico, afinal, é lá que se reconcilia com o catolicismo, que apreende o candomblé, que redescobre o culto do espírito santo, que aprofunda o cristianismo primitivo, que reinterpreta Confúcio e Lao-Tse, que reaviva, ao lado de Eudoro de Sousa, o sentimento universal dos gregos antigos, que incentiva, com Vicente Ferreira da Silva, uma vivência religiosa denominada “Alcorão”.”[1]
Indo ao encontro do conceito de “luso-tropicalismo”, de Gilberto Freyre, o Brasil torna-se, em Agostinho, o contemporâneo parceiro ecuménico por excelência daquele Portugal medieval que proclamava o Reino do Paráclito, até porque depois da proibição e, com o tempo, da quase completa extinção do culto no país, passa a ser o Brasil a sua principal sede de ritualização. O nosso autor chega mesmo a considerar que não podendo Portugal, como “rosto da Europa”, liderar o Projeto, talvez venha a ser o Brasil o seu porta-estandarte. De qualquer maneira, tal como defende no IV Colóquio de Estudos Luso-Brasileiros, 1959, realizado em São Salvador da Bahia, deveria, e deverá, caber à comunidade luso-brasileira a missão de condução desse projeto ecuménico ao mundo.

3.
A ditadura militar que triunfa no Brasil, em 1964, vem trazer sérios problemas à Universidade de Brasília onde o Professor trabalhava. Com o desenrolar dos acontecimentos, avesso a ditaduras, resolve regressar a Portugal. Este novo período da sua vida no país que o vira nascer, será marcado pelo retomar de algumas velhas questões que tinham ficado para trás, mas agora de uma forma mais amadurecida. Tratava-se, agora, de renovar e divulgar alguns dos temas que foi desenvolvendo ao longo da vida, até porque os novos ventos da liberdade já se iam anunciando pelo país.
Não foram, no entanto, tempos fáceis, até porque a revolução da liberdade que foi o “25 de Abril” trouxeram o país dividido entre vários liberalismos e marxismos. De maneira que, divulgar a “Mensagem” de Fernando Pessoa, ou melhor pô-la em ação, não era tarefa fácil num país que transbordava de mercantilismos vários entre arrufos autocráticos, mas na sua maioria todos, ou quase, muito avessos a uma mensagem de cariz espiritualista, como era a “velha” história “quinto-imperial” de Vieira e de Pessoa que punha muito pelo meio a palavra religião, tanto mais que Agostinho da Silva trazia uma expressão carregada de suspeita como era a do “culto popular do Espírito Santo”, da descida à Terra da Jerusalém Celeste, ou da (re)instauração do Reino do Paráclito, disfarçado em saudosista mensagem de suspeitas “Renascenças Portuguesas”.
Mas Agostinho, já estava mais à frente, que é simultaneamente estar mais atrás, e ao “catolicismo” de Vieira e ao “Paganismo Superior” de Pessoa, propunha que se lhe acrescentasse o budismo. Cristianismo e budismo, a desejável fusão que dará, de novo, “novos mundos ao mundo” (e aqui para não deixarmos de fora Luís de Camões e a sua “Ilha dos Amores”), duas doutrinas, porventura, uma mais religiosa, outra mais ateia, ambas capazes de produzir uma ideia de Deus que não é pertença de nenhuma religião em concreto, antes que as soma a todas e a tudo, simultaneamente tudo e nada, bem e mal, ponto sem dimensão.
Portanto, uma nova ideia de religião, onde caibam todas as religiões, mas também ateus e agnósticos, que saiba construir na terra um reino divino, ou seja, uma organização social que se caracterize por uma dimensão de serviço do bem comum, onde todos possam velar por todos e não pelo desenrasca de só alguns. Um país que possa afirmar-se como uma fraternidade espiritual que erga o estandarte da Paz, cuja missão inclua a consolidação do pacifismo entre os homens.
 Essa nova ideia do divino, afinal, para que se possa bem exemplificar com a realidade, tem equivalências com o culto do divino Espírito Santo que entrou em Portugal no século XIII, e com alguns aspetos da organização da sociedade medieval portuguesa, de economia comunitária, onde todos os estratos sociais e todas as religiões se sentavam à mesma mesa, culto esse que acabou por ser proibido por uma hegemonia religiosa que se pretendeu “católica”, expulsando mouros e judeus. Por isso, proibido em Portugal, acabou por ter de rumar a outros lugares, sendo que atualmente mais se comemora nos Açores e no Brasil.
Ao regressar do Brasil, em 1969, onde, como vimos, desenvolveu uma obra notável, Agostinho da Silva vai retomar algumas ideias que já tinha desenvolvido, no nosso país, sobre “Educação Nova”. Ele que, nos primeiros anos da década de quarenta, tinha tido uma importância decisiva na resistência deste movimento ao Estado Novo, de novo sem recuar perante a política fascista, conservadora, que o levou ao autoexílio vai escrever “Educação de Portugal”, em 1970, um livro onde recupera alguns dos ideais daquele movimento pedagógico, livro que, no entanto, por falta de editor, só viria a ser publicado em 1989.

         Mas a sua produção escrita, neste período, sobre a “Educação Nova”, não se resumiria à “Educação de Portugal”. Durante os dois anos seguintes, 1971 e 1972, vai coordenar e escrever temas sobre educação na Revista Mundial, onde novamente vai abordar a temática da “Educação Nova”, revelando o autor, mais uma vez, uma certa militância com o movimento.

Mas é sem dúvida no seu livro “Educação de Portugal” que Agostinho da Silva desenvolve as suas teorias educativas, onde se parte, é certo, de alguns enunciados dessa nova educação, mas sem que o autor se fique por eles e desenvolva todo um projeto educacional para Portugal.
Começando por deixar claro que não domina a bibliografia do que se tem feito no país em matéria de educação, mas com certeza imaginando que a evolução durante o período em que esteve ausente não terá sido facilitada pelo regime político do Estado Novo, o início deste livro é claro quanto à matriz ideológica do autor em matéria de educação. Utilizando a insubstituível prosa de Agostinho da Silva, “Creio, primeiro, que o mundo em nada nos melhora que nascemos estrelas de ímpar brilho: Nada na vida vale o homem que somos; homem algum pode substituir a outro homem. (...) Não sou eu, por conseguinte, que tem de refletir por ele, não sou eu quem sabe o que é melhor para ele, não sou eu quem tem de lhe traçar o caminho; com ele só tenho um dever que é o de ajudá-lo a ser ele próprio. (...) Acreditando, pois, que o homem nasce bom, o que significa para mim que nasce irmão do mundo, não seu dono e destruidor, penso que a educação, em todos os seus níveis, formas e processos, não tem sido mais que o sistema pelo qual esta fraternidade se transforma em domínio (...) Pelos tempos fora, temos querido que a escola, seja fundamentalmente uma fábrica de fortes para vencermos na vida. O grave de tudo isto é que nos lembramos sempre da criança que fomos e que por nossas mãos matamos.”[2]
Cerrando fileiras, Agostinho critica de forma dura o funcionamento das escolas tradicionais desenvolvidas durante o Estado Novo e explicita qual deverá ser o espírito de uma nova escola. Sustenta ele que, a escola tradicional é um lugar para onde um menino é levado, onde lhe dão um mestre especializado numa educação que trata, não de deixar que o futuro homem se desenvolva na sua plenitude, mas de o levar a que sirva com utilidade e respeito, aqueles que, já eles, não se desenvolveram. “Escolas que melancolicamente ensinam o que fazem os outros, com alunos que apenas disputam diplomas e professores a que só o título interessa. (...) Educar não é levar ninguém a ser isto ou aquilo, não é tentar influir de qualquer modo em sua orientação futura, mas dar meios de expressão à sua capacidade criadora e de comunicação, quer ela se exerça lendo e escrevendo, quer manualmente num ofício e sem que se separe uma atividade da outra.”[3]
Em Janeiro de 1990, já muito perto do fim da sua vida, a coerência do seu pensamento mantém-se, como podemos comprovar através de uma mensagem que o Professor envia para um debate sobre o tema “Escola Cultural”, realizado na Escola Preparatória de Fernão Lopes que reproduziremos na íntegra: “A Escola agora deverá ser transformada completamente. Ainda vai levar um tempinho até chegarmos lá, mas vai mudar e vai mudar no seguinte sentido: a criança vai dirigir-se à escola, não porque tem de fazer um exame para obedecer à lei geral do país – escolaridade obrigatória. Por exemplo, ela irá à Escola, à escola que lhe apetece e quando lhe apetece, para aprender aquilo que corresponde à sua vocação íntima. E é o que já hoje acontece com pequenos grupos de gente, em atividades livres da escola, com clubes, com coisas semelhantes. A criança está aprendendo um meio de expressão daquilo que é realmente nela o artista criador – o poeta que nasceu. (…) Essa escola vai avançar. Todas essas obrigações de inovação educativa e não pedagógica estão indo muito bem. É por esse caminho que se vai ter de ir e toda a gente está interessada no desenvolvimento psicológico, no desenvolvimento dos homens, para eles cumprirem aquilo para que têm vocação que é de serem artistas e criadores. Toda essa gente só tem que dar os parabéns pelo avanço que já temos e por todos os passos que se derem porque serão sempre, haja o que houver, passos em frente, embora às vezes pareça que há recuos. Mas são recuos apenas como que para uma pessoa descansar, para haver uma pausa, porque depois a sinfonia continua.”[4]
É clara, portanto, sem possibilidades de engano, e o próprio autor o menciona, que as principais diretrizes do seu projeto educativo emanam das teorias da “Educação Nova”. O único trabalho satisfatório, refere Agostinho, é aquele de que somos plenamente responsáveis, seja para os professores, seja para os alunos, e em todas as escolas não deveria ser de outra maneira, como ensaiaram com tanto êxito o Plano Dalton, ou as escolas de Winnetka, ou as diretivas de Cousinet, sem que se esqueçam a liberdade criadora que Tolstoi introduziu em Isnaia Poliana, ou o convívio de fraternidade e discussão que representa o melhor de Summerhill.  
Mas o nosso autor não se fica, simplesmente, por enunciar os princípios dessa educação, vai passá-los para o futuro e acreditar, pleno de fé, que o futuro lhes pertencerá: “Resumindo, diria pensar que a natureza humana, mais do que boa, é excelente; que a sociedade, e nela a educação, ajudando o homem a sobreviver, o tem limitado, e muito, no melhor do que é o seu ser livre; mas que o pior passou e que todo o sofrimento e toda a treva serão apenas pesadelos finalmente em paz e luz desfei- tos.”[5]
É a “educação nova” no seu melhor de regresso a Portugal. Mas, como dissemos, o projeto educativo de Agostinho vai passar muito além das conceções da “Educação Nova” e das escolas experimentais que se constituíram com o seu desenvolvimento. Agostinho da Silva pretende contribuir para a criação de um projeto educativo para Portugal, ele que, entretanto, já tinha adotado dupla nacionalidade com a sua vivência de vinte e cinco anos no Brasil, mas que não deixa de procurar as especificidades culturais do seu país de origem. Homem de ampla cultura, Agostinho da Silva defende que qualquer teoria de educação terá de nascer dum pensamento filosófico teologicamente fundado. Quer dizer, a sua visão do mundo parte de uma ação fraterna entre os homens que, através da livre criatividade da pessoa, permita a realização de um reino do divino na Terra, mas sem que reconheça a necessidade de qualquer igreja instituída. À frente das múltiplas referências ao divino, no entanto, sempre aparece referenciado o culto popular do espírito santo, tal como se desenvolveu no Portugal medieval e se foi espalhando pelo mun- do português.
Assim, à valorização da natureza da criança e à prática de uma educação pela liberdade, princípios filosóficos de que Agos- tinho da Silva nunca abdicará, vão-se juntar determinantes religiosas, católicas, universais, que fazem com que a educação de Portugal seja, ao mesmo tempo, a educação de todos os mundos.
É no culto popular do Espírito Santo, como vimos, onde radicam com mais força as suas ideias religiosas, misturadas com as profecias “quinto-imperiais” do Padre António Vieira e de Fernando Pessoa, dando-se aqui continuidade a um espírito messiânico do destino português.
Mas, mais do que Portugal, é a Língua Portuguesa o seu principal referencial, e todos os lugares onde ela se fala, como são as inúmeras comunidades de emigrantes, e outras, espalhadas pelo mundo. Agostinho da Silva é um dos precursores da conceção de um Projeto Lusófono que junte países e comunidades, ideia que, como sabemos, em certa medida, acabou por se materializar, em 1996, com a criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Sustenta o Professor, com alguma ironia à mistura, que deveria ser junto destas comunidades onde se deveriam instalar as primeiras “escolas novas” a haver, para que todos eles soubessem que são portadores do Espírito e que, a tal facto, está inerente um determinado espírito de missão, não só Português mas Lusófono, a partir do qual se deve fazer mediação do Projeto para o mundo.
Agostinho, porém, não se fica exclusivamente pela Língua Portuguesa. Como ela é irmã do Castelhano, Galego, Andaluz, Basco e Catalão, há que partir para uma Confederação Ibérica que partilhe objetivos comuns dando, assim, maiores possibilidades ao Projeto.
Importa, então, organizar o sistema educativo para que a utopia se generalize e o Projeto ganhe uma real dimensão prática. No Ensino Superior deve-se, antes de mais, formar um exército de técnicos que tenda a suprimir as necessidades básicas para de seguida se desenvolver as tecnologias de modo a substituir a mão-de-obra humana pelas máquinas, emancipando o homem do trabalho abrem-se as portas para uma plena libertação. Serão, então, as Artes e a Filosofia que ganharão primazia nas apren- dizagens escolares a fazer. No Ensino Secundário e Primário tudo se direcionará para que o ato de educar consiga preservar a criança que connosco um dia nasceu, porque o mundo em nada, nunca, suplantará o Espírito dessa natureza que um dia encarnou.



[1] PINHO, Romana V., Religião e Metafísica no Pensar de Agostinho da Silva, ed. cit., p. 233
[2] Agostinho da Silva, Educação de Portugal, Lisboa, Ulmeiro, 1989 (texto escrito em 1970), p. 54
[3] Idem: 55
[4] Idem: 56
[5] Idem: 57