"Ninguém cruza nosso caminho por acaso e nós não entramos na vida de alguém sem nenhuma razão."
Chico Xavier (in, Diálogos Lusófonos)

quarta-feira, 19 de julho de 2017

José Flórido

Certo jornalista, durante uma entrevista que fez ao Dalai Lama, comentou a determinada altura: "Vocês, budistas, acreditam na reencarnação..." Ao que o Dalai Lama respondeu: " Não se trata de uma crença... Quem não sabe isso, é por ignorância."

Fiquei a pensar. Na verdade, muitos, que dizem "acreditar na reencarnação", são tão ou mais ignorantes a esse respeito que aqueles que "acreditam". E têm, aliás, a vantagem de não estar, como os outros, iludidos por um falso saber. Por...que, afinal, o que o representante supremo do budismo quis dizer é que só pode saber verdadeiramente alguma coisa sobre este assunto quem tenha uma experiência real desse facto ou, talvez, quem consiga abrir as portas do seu próprio ser ao Saber real, ou infuso, que lhe permita ter acesso imediato a esse conhecimento.

Confesso, no entanto, a minha incerteza, ou a minha falsa certeza. Mas, admito que a palavra "reeencarnação", não seja a mais adequada, porque as "personalidades" não reencarnam. Talvez, por esse motivo, os termos "Recorrência" ou "Renovação" sejam mais expressivos e traduzam melhor a ideia contida no simbolismo da "Espiral": a de que tudo se renova e se projeta numa outra dimensão, abrindo-se um novo ciclo de vida.

Acreditar na reencarnação é muito pouco. Como é muito pouco acreditar em Deus. Disse, por isso, Agostinho da Silva:
"Crente é pouco
sê-te Deus
e para a nada que é tudo
inventa caminhos teus"

José Flórido
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Círculo do Entre-Ser


CÍRCULO DE LEITURA  


AGOSTINHO DA SILVA  

A ÉTICA CÓSMICA

18 de Julho

O Círculo do Entre-Ser inicia uma nova actividade mensal, dedicada a um dos seus inspiradores: o Professor Agostinho da Silva. Leremos e conversaremos em torno dos textos desafiadores de um homem que foi um exemplo de vida e um despertador de consciências, mostrando a grande actualidade das suas ideias nos nossos tempos. O tema desta sessão será a abrangência cósmica da ética proposta por Agostinho da Silva, bem patente neste trecho:
“[…] uma boa definição de homem, para além de suas limitações físicas, seria a de que é um ser de embrionária liberdade, cujo dever, cujo destino e cuja justificação é o da liberdade plena; plena para ele, plena para os outros, plena para os animais, plena para ervas, plena talvez até para seixo e montanha” ~ Agostinho da Silva, “Nota a Cinco Fascículos” [1970], in Textos e Ensaios Filosóficos II, pp. 262-263.
No Círculo do Entre-Ser encontra-se à venda a 3ª edição do livro de Paulo Borges, "Agostinho da Silva. Uma Antologia Temática e Cronológica" (Lisboa, Âncora Editora, 2016), bem como, do mesmo autor, "Tempos de Ser Deus. A espiritualidade ecuménica de Agostinho da Silva" (Lisboa, Âncora Editora, 2006).
As sessões decorrerão uma vez por mês entre as 18H30 e as 20H00.
 

CONTRIBUIÇÃO:

Donativo livre. Aceitamos donativos para as nossas actividades que façam o seu coração sorrir.
Av. Duque de Ávila, 95 – 3º
1069-013 Lisboa, Portugal
T: 935 500 716

terça-feira, 18 de julho de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Anteontem citei um artigo de Cintra Torres que, lido com atenção, deixa antever uma pista a partir da qual podemos perceber como é que a partidocracia em que vivemos assenta em estruturas oligárquicas. 
Mas esse é um dado que podemos extrair do conteúdo da peça que, no seu todo, é uma autêntica delícia. 
A começar pela humildade revelada em dar o seu próprio nome para exemplificar a pequenez das elites portuguesas o que justificaria a normalidade e a facilidade com que os seus intérpretes se encontrariam, mesmo de áreas diferentes como, na situação em apreço, é o caso dos homens e das mulheres do mundo do jornalismo e da política; ao que se junta a inclusão, enquanto comentador, no grupo dos homens que escrevem na imprensa, como em primeiríssimo lugar os jornalistas, os quais, precisamente por causa do facto anterior, a proximidade gerada pelos cruzamentos entre um escol numericamente reduzido, não têm como fugir à incapacidade de relatarem certos acontecimentos e investigarem determinadas pessoas. 
Isto a partir do caso de laços familiares entre uma série de profissionais da SIC e dirigentes do PS, acabando então a pérola a generalizar não ser preciso falar de cabalas na imprensa para entendermos o alinhamento que, a seu ver, aquela estação televisiva fez com a defesa dos arguidos no chamado caso Casa Pia. E para que não faltasse o argumento de autoridade, conclui com uma citação de Durkheim a explicar o que é um facto social, depois de, por essa forma, nos ter feito perceber a importância do número nos grupos humanos e rematando a tese central do artigo e que lhe dá o título, com a frase de um sociólogo alemão, “a imprensa é livre, mas os jornalistas não.” 
Damos de barato o contexto original da afirmação; seja como for, a mesma é usada para definir que a possibilidade de um trabalho de jornalismo livre varia de peça para peça dado precisamente o referido núcleo reduzido das elites com a proximidade que isso provoca entre os seus membros. 

Santa ingenuidade a minha que pensava que o ideal de um jornalismo livre e independente começaria no pressuposto que tudo e todos podem ser investigados, obviamente, sem que tal se faça na violação das leis ou das regras básicas do respeito pela privacidade de cada um. E se alguém não está em condições para levar a efeito um determinado trabalho jornalístico, não será do mais elementar bom senso atribuir a tarefa a outra pessoa? 
Bem, se não for apenas formalmente, isto é, a existência de uma liberdade de imprensa consagrada em leis que para nada servem e que não são respeitadas por quem quer que seja, de tal forma que os jornalistas, em termos de facto, se vejam coagidos e coarctados na sua autonomia para escreverem livremente os seus textos, fora disso dificilmente consigo almejar como é que uma imprensa pode ser livre se os jornalistas não forem. De qualquer forma admito que aconteça e que tão só por ignorância eu ainda não saiba que os jornais já se fazem sem o elemento humano. 

Enfim, mas linda, linda, linda é a inocência de quem escreve assim: “(…) A tese de doutoramento em 1995 de Pedro Tavares de Almeida na FSCH-UL (que ainda não li) quantifica e analisa esta endogamia e autodefesa da élite política na primeira Regeneração, na segunda metade do século XIX. (…)” (1) 

E depois digam lá como é que Portugal pode deixar a cauda da Europa. Com elites destas… 

A tragédia é que são estes os fazedores de opinião e assim se descartam as perguntas mais incómodas mas, simultaneamente, mais pertinentes. 
Existem ou não grupos que têm a capacidade para impor notícias e outros textos ou peças na comunicação social? 

É aqui que se pode ver se a imprensa e os jornalistas são ou não livres o que, em Portugal… 

De outra forma como explicar o tratamento que aqueles têm dado à recuperação de Kadhafi e às ténues aberturas do regime iraniano? 
E como é que ninguém quer ver as relações com a guerra ao terrorismo é que eu cá estou. 
Em contrapartida, as bombas e os bombistas suicidas que matam em Bagdad são actos de resistência do povo iraquiano. 



Hoje os alunos fizeram fichas e exercícios com os números dados e já estão a fazer um uso regular das somas. 



Então o ministério da justiça não tem “contratados” que ultrapassam todos os prazos e regras que a legislação do trabalho enquadra, a quem reteve dinheiros para a segurança social que nunca chegaram ao seu destino, tendo permanecido nos cofres da entidade empregadora? 
Onde será o fundo em que os portugueses irão bater? 



E o dia de hoje, cheio de Sol, com o verde dos campos tão viçoso a realçar um azul dos céus a que apetecia encostar o rosto. 


 Alhos Vedros 
  28/01/2004 


NOTA 

(1) Cintra Torres, Eduardo, A IMPRENSA É LIVRE, OS JORNALISTAS NÃO, p. 41 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Cintra Torres, Eduardo, A IMPRENSA É LIVRE, OS JORNALISTAS NÃO, In “Público”, nº. 5056, 26/01/2004

segunda-feira, 17 de julho de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL.... (263)

delarochehemicycle3

The Hemicycle of Fine Art (detail) (1836-41, 1853),oil and wax on canvas, approx 4.5 x 27 metres


Paul Delaroche, nasceu em Paris em 17 de Julho de 1797. Determinado a tornar-se artista, ingressou no estúdio de Antoine-Jean Gros e fez a sua estreia artística no Salão de Paris, em 1822. Foi um dos pintores do romantismo mais conhecidos do início do século XIX.


Selecção de António Tapadinhas

sexta-feira, 14 de julho de 2017

TEATRO POEMA NO MUNDO



“E se de repente as palavras desaparecessem dos livros? E se um camelo comesse as palavras todas e se transformasse num Atelier de Animação da Leitura e da Escrita de uma Biblioteca itinerante em todos estes desertos urbanos em que vivemos”

Trabalhámos uma ideia do escritor Rui Saramago em “A Escrita Efémera”. (Circulo de Leitores),

TEATRO POEMA NO MUNDO
25ª Celebração da IDEA
Por José Gil
no Colégio do Espirito Santo – Universidade de Évora





1. O poema teatro e mundo


No dia 12 de manhã, apresentámos a intervenção “O MEU PAIS É O MEU CORPO” com o “pontapé de saída” da atriz e diretora de Teatro, Rita Wenglorowius. Depois de apresentar os atuais Projetos de Teatro Social, pelo Teatro Profissional e Comunitário Teatro Umano e do Mestrado em Teatro Comunitário da Escola Superior de Teatro, do Instituto Politécnico de Lisboa, lançou-se o mote para a nossa intervenção: “Se tu fosses o Poema e o Teatro no mesmo mundo de todos aqueles em que vivemos.”
Retomámos ideias do mesmo escritor na mesma obra e que nos serviram de indutores: “E se… a comunicação numa cidade [como Lisboa] se tornasse tão intensa que provocasse uma saturação de símbolos e significados na mente das pessoas? E se o mundo contemporâneo, com as suas imagens [o nosso foco é o país dos viajantes que são o seu corpo em viagem pelo mundo] e os seus slogans por todo o lado induzisse essa saturação?!”
O nosso indutor ou isco chave — a metáfora do pescador, do isco e do peixe — poderia aproximar-se de uma crónica do descalabro. Do caos nasce a luz?
Os participantes eram da Sérvia, da Finlândia, da Itália (Nápoles), do Uganda, da Áustria, da Alemanha, do Peru, da Austrália e de Portugal (Chapitô, Umano - Lisboa, IPS Setúbal). Lançaram-se logo nas palavras, escreveram nas folhas brancas ultrapassando as restrições habituais em Oficinas de Escrita criativa (poesia e teatro) em todo o mundo. Recordamos e registamos:

“na cabeça amo mangas
como um copo de água”
Winnie, 28 anos, Uganda (África). 28 anos

 “o som do amor
quando o ouvi
sentei-me no chão
com as minhas orelhas
comi abacaxi”
Anónima, 26 anos, Áustria

“Águas quentes
Dançam dentro dos olhos
Se me apaixono
E sou uma mandarina
Sumarenta”
Lili, 61 anos, Peru (América do Sul)

 “Quando nado na água
Os meus olhos
Perdem-se por 
Amor
Numa árvore de
Mangas”
Davis, 26 anos, Uganda (África)

“O pêssego é amigo do fogo
Meus olhos
Perdem-se nele
Quando morre
Queimado”
Salvatore, 54 anos, Itália (Nápoles)

“Rir (Alegria)
Com ouvido para ouvir
A risada d’água 
é refrescante
como a laranja”
Tintti, 65 anos, Finlândia

 “Meus dedos do pé estão queimando
De busca de paus
que eu estou cozinhando para
meu milagre wafes.

Como wafes com a minha cabeça
já parece uma melancia

Humor e confiança no amor
Faça-me ir”
Aline, 31 anos, Alemanha

“Há morango nos meus olhos…
Isso é uma paixão
Que não pode ser lavada om água pura”
Jovana, 18 anos, Sérvia

“Meus olhos veem um vislumbre
De madeira de “swayina”
Suavemente no ar e na minha casa
 cheios de gratidão”
Nina, 66 anos, Austrália (de origem italiana)

“Espero com todos os meus ouvidos
Então continue me perguntando 
(…) enquanto estou na terra
por instantes a maçã
(,,,) nesta terra
Continuo me perguntando
Com todo o coração
Sobre a maçã (...)”
Adriana, 65 anos, Países Baixos

“Seus olhos estavam olhando para a água no grande lago
enquanto fazia uma maçã, 
(…) ela gosta do amor
que une o seu corpo”
Peppe, 31 anos, Itália

“os meus olhos são laranjas
De ar pleno de amor”
anónima, 42 anos, Portugal

Trabalhámos os poemas a partir de imagens/indutores:
        1. A fruta que mais gosta;
        2. A parte do corpo preferida;
        3. Um elemento da natureza (ar, fogo, água, terra);
        4. Uma emoção, um sentimento…
Os participantes/autores leram os poemas e fizeram alterações em inglês e na sua língua materna e novamente em inglês contando com a colaboração dos participantes estrangeiros com conhecimentos de português. O português escrito foi contextualizado para lhe dar a forma oral e performativa.
A seguir trabalhámos a recitação nas várias línguas com atenção à postura, todos em pé, à respiração, à leitura em voz alta com serenidade, o peso de cada palavra e de cada verso… iniciando-se a improvisação gestual e em movimento que permitiram melhorar a interpretação e partir para o segundo grande jogo.

2. Teatro é Repetição


O Teatro provoca diferença de tradução e interpretação corporal. A proposta foi que cada participante contasse com o corpo (gestos e movimentos e poucas palavras) a história mais terrível que lhe contaram na sua infância. Poucas palavras, as necessárias à narração na língua materna de cada um. Foi mantida a língua inglesa como língua veicular, de forma a decifrar as mensagens, depois de intensa repetição e melhoria do gesto, do movimento e da expressividade das contadoras de história tradicionais da África, da Europa do Sul, da América do Sul, da Europa Central, do Norte ou do Leste, da Austrália. 
O Teatro deriva da ação da improvisação do ensaio repetitivo e diferenciado:
1.       Repetição após repetição sempre diferente. Este é o grande prazer de fazer diariamente teatro. Repetição com novos elementos. Repetição e diferença como nos fala Gilles Deleuze;

2.       “Um conceito de diferença implica uma diferença que não é só entre duas coisas e que não são mais do que uma simples diferença conceptual, é preciso ir até a uma diferença infinita (teologia) e para uma razão simples (física). Qual são as condições para constituir um conceito puro de diferença. Um conceito de repetição implica uma repetição que não é só da mesma coisa do mesmo elemento. As coisas é o elemento que supõe uma repetição mais profunda, rítmica. A arte não é pesquisa de repetição, mas também de pensamento (Contracapa)”. (1)

3. Celebração
Tratando-se da Celebração 25ª da IDEA, fizemos com fotos uma viagem rápida sobre alguns momentos do 3º Congresso no Quénia, Lago Vitória onde estivemos com um Atelier Internacional “Flying Like a Bird Over the Stage” (traduzimos neste momento por “Voando como um pássaro por dentro do palco”) e incluímos no título chave desta investigação que temos vindo a registar: “O meu país é o meu corpo” (projeto IPS-ESE). Através da Alexandra Espigão, as fotos foram entregues ao Repositório Digital de Memórias da IDEA. Foi a nossa pequena prenda aos 25 anos da IDEA.
Neste tipo de intervenções trabalha-se sobre três níveis:
1.       O criador – o poeta, o bailarino, o encenador, o dramaturgo, o guionista;
2.       O instrumentista – o corpo como instrumento, a improvisação teatral, um instrumento musical (por exemplo o cavaquinho) e a Voz (articulação, projeção, dicção);
3.       O espectador – levar as pessoas às salas de espetáculos e realizar debates abertos e muitas vezes intervenções nos espetáculos pelos espectadores.

José Gil
14-7-2017

quarta-feira, 12 de julho de 2017

O Paraíso das Redes


Duetos luso-brasileiros
Fotografia - Kity Amaral
Texto - Luís Santos


O Paraíso das Redes


Enquanto balanço na rede que me foi oferecida pelo meu amigo índio, são jorge, axé do afoxé, filhos de ghandi, entre a próxima reunião e o pão nosso de cada dia, facebook, coisa de brincar, que nos ajudará a libertar de vez, pergunto qual é a diferença que existe entre a alma e o espírito, aquilo que eu sou, aquilo que tu és, porque descemos aqui, porque haverás de subir? E a palavra do índio diz dos segredos da natureza, do mistério que é teu coração, corpo subtil, amor, amar, porque tudo no planeta é irmão.
A música AQUI 

Mote
"Durante o Brasil colônia (a rede) era muito utilizada para dormir, enterrar os mortos no meio rural e como meio de transporte, onde os escravos carregavam os colonos em passeios pela cidade, e até em viagens. A maca – ou rede de dormir – é um artefato legado dos indígenas da América do Sul."

terça-feira, 11 de julho de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

UM SERÃO TELEVISIVO

Em menos de duas horas a Matilde resolveu um puzzle de cem peças. 



Mas hoje quero apenas registar que os alunos deram o número sete e uma nova palavra, leque, a propósito do que fizeram os respectivos exercícios. 
Houve trabalho para casa que o pardalito realizou com distinção. 



Estou a ver um programa sobre o segredo de justiça e a ideia que fica é que em Portugal estamos em plena selva. 
Um jornalista já disse que há jurisprudência na violação daquele. 

Quero comentar o artigo que ontem tomei como referência mas, dadas as circunstâncias, reservo-me para amanhã. 

Para já, vou ver a última parte daquele programa. 


 Alhos Vedros 
   27/01/2004

segunda-feira, 10 de julho de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (262)


 A Colheita, Camille Pissarro, 1876
Óleo sobre Tela, 65 x  92cm

Camille Pissarro: nascimento 10 de Julho de 1830
                            falecimento em 13 Novembro de 1903

Selecção de António Tapadinhas


domingo, 9 de julho de 2017

Inflorescência by Kity Amaral






Fotomontagem 2017

Feita com muito esmero para o Estudo Geral

Kity Amaral


quinta-feira, 6 de julho de 2017

AROUCA GEOPARK



Miguel Boieiro
Julho/2017

Por iniciativa do amigo Fernando Brioso que organizou e dirigiu excelentemente a digressão às terras de Arouca, foi-nos possível visitar calmamente uma das regiões mais fascinantes do nosso País, prenhe de encantos paisagísticos e curiosidades geológicas. Avisa-se, desde já, que não é intenção deste escriba apresentar um relato rigoroso e completo do que nos foi dado apreciar. Seria impossível, por inépcia, descrever todas as sensações obtidas nas visitas efetuadas à Casa das Pedras Parideiras, na aldeia da Castanheira, à Frecha da Mizarela, ao Pico do Gralheiro da Serra da Freita (Radar Meteorológico de Arouca) e aos Passadiços do Paiva e, já agora, também ao riquíssimo Mosteiro de Arouca. Ficam apenas meros lamirés de botânica do que fomos enxergando ao longo de dois dias, para aguçar apetites. Quem, porventura, quiser saber mais detalhes, que busque, pois há bastante documentação histórica e científica sobre a região, com exceção, talvez, no tocante à flora.
O que me leva a escrever é somente a vontade de registar determinados aspetos botânicos que, despreocupadamente, fui anotando no meu caderninho, enquanto caminhava. Não é, nem poderia ser, uma lista exaustiva de conteúdo científico. Ela deve ser entendida como algo de pessoal que sensibilizou o cronista no que à biologia vegetal diz respeito. O que se relata poderá despertar interesse nos leitores com motivação sobre o tema. Para outros, tal descrição será talvez enfadonha de mais. A esses peço desculpas pelo tempo que possam perder. Englobo também nessas desculpas os biólogos encartados pelo atrevimento deste sapateiro que pretende ir além da chinela e almeja tocar rabecão.
O primeiro panorama que se divisa recorda inapelavelmente os terríveis incêndios ocorridos no ano transato que devastaram muitos hectares de pinheiros e eucaliptos da Serra da Freita. Na negrura dos solos vêem-se agora os rebentos verde-azulados que brotam das touças dos eucaliptos queimados e o nascimento de acácias cujas sementes são pirófilas. Aqui e ali, apenas alguns sobreiros isolados com a cortiça enegrecida, a qual os protegeu do fogo. 
O cruzamento de terrenos xistosos com graníticos e as escorrências das águas que descem as montanhas proporcionam a existência de uma vegetação muito rica e diversificada, mormente nas margens do Paiva. Foi pena não termos detetado qualquer publicação editada pela Câmara Municipal ou pelo Geopark que abordasse exaustivamente as plantas interessantes que bordejam os Passadiços. Eis as que me saltaram à vista desarmada:
- Dedaleira (Digitalis lanata) – É uma espécie característica dos solos ácidos. Altamente venenosa contém, no entanto, valiosos princípios ativos para tratar doenças do coração.
- Fitolaca (Phytolacca decandra) – Proveniente da América do Norte. Esta planta surge por todo o lado no nosso País. Crê-se que são os pássaros que ingerem os frutos, expelindo as sementes que resistem ao trato intestinal sem se degradarem. Atenção: é venenosa para os humanos, apenas se pode usar externamente como planta medicinal!
- Espinheiro-alvar (Crataegus monogyna) – Arbusto encontrado em grande quantidade e também relevante para tratar doenças do coração.
- Murta (Myrtus communis) – Outra planta lindíssima, ornamental e medicinal. Alguns exemplares ainda se encontravam floridos, outros já apresentavam os frutinhos.
- Urze branca (Erica arborea)
- Queiró (Erica umbellata). As urzes são plantas melíferas muito apreciadas que aqui se mantêm alegremente floridas no início do verão.
- Carqueja (Pterospartum tridentatum). As carquejas possuem raízes muito vigorosas que lhes permitem resistir ao fogo. Aguentam bem a falta de água e encontram-se nas vertentes e cumes das montanhas. No Pico do Gralheiro praticamente só se veem carquejas a despontar do solo queimado.
- Maceróvia-pedunculata (Anarrhinum longipedicellatum). Estas graciosas plantas, um pouco raras, alegram o percurso dos Passadiços com as suas minúsculas flores azuis pediceladas.
- Arenária (Arenaria montana). As arenárias formam um manto florido com as suas pequenas flores brancas.
- Uva-de-gato (Sedum hirsutum)
- Arroz-dos-muros (Sedum brevifolium). O género Sedum, caracterizado por formar pequenos tapetes agarrados aos rochedos, possui valias medicinais.
- Hyacinthoides paivae. Trata-se de uma Asparagaceae endémica da região. Curiosamente a designação latinizada “paivae” não se refere ao rio Paiva, como logicamente poderíamos supor. O nome provém duma homenagem ao eminente botânico e professor da Universidade de Coimbra, Jorge Paiva.
- Lavatera (lavatera sps). Linda e delicada malvácea.
- Fel-da-terra (Centaurium sps). Planta medicinal muito amarga. Basta provar uma folhinha para o comprovarmos.
- Milfurada (Hypericum androsaemum). Outra valiosa planta medicinal.
- Saramago-das-rochas (Murbeckiella sousae). Eis mais uma planta endógena da família das Brassicacea. A sua flor é branca.
- Rúcula (Eruca sps). Foi a planta que mais me surpreendeu ao longo do percurso de 10 km pelos Passadiços do Paiva. Encontra-se em maior profusão na zona apelidada de Garganta do Paiva (a mais difícil de trepar). É uma interessante crucífera com folhas mais largas do que a Eruca sativa e com menos componentes sulfurados. Assim nos pareceu depois de a degustarmos.
Sem mais delongas, acrescento a seguir algumas árvores e arbustos mais conhecidos, encontrados no caminho:
- Loureiro (Laurus nobilis)
- Gilbardeira (Ruscus aculeatus)
- Lódão (Celtis australis)
- Amieiro (Alnus glutinosa)
- Freixo (Fraxinus angustifolia)
- Sabugueiro (Sambucus nigra)
- Castanheiro (Castanea sativa)
- Salgueiro (Salix alba)
- Pinheiro-bravo (Pinus pinaster)
- Carvalho-negral (Quercus pyrenaica)
- Carvalho-alvarinho (Quercus robur)
- Sobreiro (Quercus suber)
- Medronheiro (arbutus unedo)
Algo relevante foi também a complexa rede de fungos, líquenes e musgos cravados nos rochedos graníticos ou nos troncos das árvores mais robustas. Entre todos quero apenas destacar o feto-real (Osmunda regalis) e o avencão (Asplenium trichomanes).
Previne-se a terminar, que esta listagem de plantas observadas por um simples amador fascinado pela botânica, peca por ser deveras incompleta e conterá provavelmente alguns erros. Despertar curiosidades e estimular a observação da natureza constitui o fito principal desta singela croniqueta.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Desaprender e reaprender tudo. Deixar de viver mortos. Despertar


Paulo Borges

Somos uma sociedade que perdeu a alegria de ser, contemplar, criar e amar. Por isso vivemos no frenesim de trabalhar para produzir, lucrar e consumir, no frenesim de nos ocuparmos sempre mais a superar alguém e a fazer mais coisas, no frenesim da busca de estímulos e distracções a todo o custo que nos deixam cada vez mais sedentos e insatisfeitos. É esta a nossa maior violência, contra nós e contra tudo. É ela que está a destruir os nossos bens e recursos mais preciosos, as n...ossas vidas, o tempo, a Terra, as vidas de todos os seres. É por esta violência que a economia mundial nos devora e o planeta se enche de dejectos industriais, a materialização do lixo interno da nossa avidez insaciável.

Como é ingénuo e ilusório pensar que isto se resolve com medidas externas, jurídicas, políticas ou económicas! Chega de paliativos e manobras de diversão. É de saber viver que necessitamos. Reaprender a felicidade de respirar, de dar um passo sobre a terra, de contemplar o céu, de beber um gole de água fresca, de acariciar um ser vivo, humano, planta ou animal. Reaprender o êxtase de amar toda a expressão da Vida. Desaprender e reaprender tudo. Deixar de viver mortos. Despertar. Aqui-Agora.


terça-feira, 4 de julho de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

A MORTE AQUI TÃO PERTO

Gostei da homenagem que a equipa do Sporting prestou a Miklos Féher, o famigerado futebolista que ontem faleceu durante o jogo com o Vitória de Guimarães. 
Antes do treino, todos os atletas e a equipa técnica fizeram um minuto de silêncio e depois bateram palmas. Há dignidade no futebol. 
A rivalidade só faz sentido no campo e nas alegrias que o jogo proporciona e nas brincadeiras com que podemos encarar as tristezas dos outros. Adversários, isso, só mesmo dentro das quatro linhas. De resto somos todos pessoas e as pessoas têm gestos bonitos como aquele. 

Lá do sítio onde agora está, Féher agradece e diz viva o futebol que não mais deixará de jogar com a camisola do Benfica. 



E a Marte chegou em bem o robot “Oportunity” e já nos enviou mais uma série de fantásticas imagens. 
Por boa sorte, amarciou perto de uma formação rochosa e está agora pronto para iniciar as suas marchas. 

A curiosidade entra em efervescência. 



E na Índia deu-se o encontro histórico entre o chefe do governo e o líder da resistência independentista de Caxemira. 
Rezamos para que este signifique o primeiro passo para a paz naquela região. 

Quanto a mim, esta é uma das consequências das ondas de choque da luta sem tréguas ao terrorismo internacional de que a batalha do Iraque está a ser um dos teatros. 



Hoje os alunos fizeram exercícios com números e depois passaram a trabalhar o primeiro ditongo aprendido, com cópias das palavras aprendidas a partir de mamã e exercícios com as sílabas suas componentes. 



Um artigo de Eduardo Cintra Torres chama-nos a atenção para a promiscuidade entre os intérpretes do poder político e do mundo do jornalismo. 
Dando especial relevo à endogamia entre as nossas elites, oferece-nos pistas para percebermos como é que a partidocracia em que vivemos assenta em estruturas oligárquicas. (1) 



De mansinho, a chuva regressa ao convívio da noite. 


 Alhos Vedros 
  26/01/2004 


NOTA 

(1) Cintra Torres, Eduardo, A IMPRENSA É LIVRE, OS JORNALISTAS NÃO, p. 41 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Cintra Torres, Eduardo, A IMPRESA É LIVRE OS JORNALISTAS NÃO, In “Público”, nº. 5056, de 26/01/2004

segunda-feira, 3 de julho de 2017

sábado, 1 de julho de 2017

89


ESTUDO GERAL
Jun/Jul       2017          Nº89

"Ninguém cruza nosso caminho por acaso e nós não entramos na vida de alguém sem nenhuma razão" (Chico Xavier, Diálogos Lusófonos)

Sumário

5.     José Flórido
---------------------------------Fim de Sumário----------------------------

quinta-feira, 29 de junho de 2017

O Império Português, 500 anos...


Francisco Gomes Amorim
http://fgamorim.blogspot.pt/

Texto polémico o que se segue. Mas o que há de melhor do que polemizar... para mais nos compreendermos e entendermos? Polémico e o resumo do resumo!

É sabido que em 1483 Diogo Cão chegou à foz do rio Zaire, onde tomou conhecimento de um potentado africano, o Manicongo. Desembarcam e são festivamente recebidos pela população. Para não interromper a viagem de exploração do Atlântico, segue para o Sul até ao Cabo de Santa Maria, mas manda emissários ao rei do Congo. No regresso não encontra os emissários e leva alguns congoleses até Portugal. Regressa no ano seguinte, trazendo de volta os africanos que levara, e é ele quem vai cumprimentar o rei do Congo, na sua embala, a cerca de 200 quilômetros da costa. O reino englobava algumas áreas a que depois se deram nomes “europeus”: ducados, marquesados e condados.

Para ajudar o novo “irmão” do rei D. Manuel, não tardou a que soldados portugueses tivessem que entrar em guerras entre os vários nobres da região, procurando que entre todos houvesse paz. Portugal queria parceiros comerciais e só com paz haveria comércio. Jamais houve.

Entretanto, um pouco a sul, o N‘Gola, sabendo do convívio dos portugueses com o rei do Congo, manda uma mensagem ao rei de Portugal pedindo-lhe missionários. E vai Paulo Dias de Novais, como embaixador, acompanhado de quatro missionários, desembarca em Luanda e segue ao encontro do chefe indígena. Já não era o que tinha escrito a carta, mas um filho seu. Paulo Dias acaba prisioneiro durante cinco anos!

E as guerras entre os vários sobas e destes com os portugueses, não acabam nunca. Ora se alinhavam de um lado ora de outro.

Sem que se conheçam as suas procedências e suas histórias, algumas centenas de portugueses já se haviam espalhado por Angola, negociando diretamente com os povos indígenas. Desde o Congo até Benguela, e para o interior, esses foram, por sua conta e risco, os primeiros europeus a habitarem a África negra.
Por influência destes e de alguns relatórios dos jesuítas, em Portugal era grande o sonho da prata que Angola teria. Nunca teve.

Em 1498, a caminho da Índia, chegam os portugueses a Moçambique. O objetivo desta viagem era muito mais importante do que o hipotético comércio com Angola. A Índia e as suas especiarias, negócio altamente rendoso, na Europa nas mãos de venezianos e genoveses e nos mares até à Europa com os árabes, muçulmanos, inimigos da cristandade, que havia pouco tinham sido despejados da Península Ibérica. O objetivo era tomar esse negócio das suas mãos, e fazer de Lisboa o centro de distribuição dessas especiarias para toda a Europa.

Em Moçambique, a Ilha, era o ponto obrigatório de passagem de todos os comércios com a Índia, e apesar de pequena, era já povoada por árabes e macuas islamizados. A partir desta visita, Portugal consegue uma pequena parte, cria uma Misericórdia para aí deixar doentes, e ter o seu apoio logístico.
Começa a ganância. Naus cada vez maiores e com mais naufrágios, em poucos anos o custo da “Índia” era superior ao seu rendimento e, além de se endividar, Portugal começou por proibir a instalação de colonos nas terras a que se outorgou possuidor, por terem sido “descobertas” pelas suas caravelas.

Assim que o Brasil se mostrou colonizável, Angola passou a viver do negócio da escravatura. Escravos era a principal “mercadoria” que todos encontravam em África. Além disso, Angola, pouco mais tinha: um pouco de cera, para iluminação e para as igrejas, um tiquinho de marfim, e prata... zero.

Na costa Oriental, tudo quanto Portugal pretendia era ter livre o acesso ao Monomotapa. Ao ouro do Monomotapa! Nada de colonizações. Mas arrogava-se o direito de ser senhor das terras primeiro visitadas e depois daquelas em que, em permanência, se batia com os árabes, ali instalados há vários séculos, para garantirem o comércio do precioso metal, e para combaterem o negócio de escravos.

Além do ouro tinha muito marfim, normalmente enviado para a Índia onde era trabalhado por artistas artesãos. Da Índia saíam os principais produtos que serviam de troca com o nativo moçambicano.

E durante séculos as colônias africanas era “propriedade” dos reis de Portugal, mas limitadas a uma pequena faixa de terra litorânea e a algumas capitanias em portos onde pudesse haver negócio.

Lourenço Marques “descobre” a “Baía da Lagoa, que mais tarde teve o seu nome, mas onde durante uns dois séculos não residia nem um único português ou colono.

Foi assaltada por austríacos, ingleses e franceses, porque ali o negócio de marfim era importante. Mas sempre Portugal reclamava que aquelas terras lhe pertenciam porque fora o primeiro a descobri-las!

Em 1781 o ministro Martinho de Melo e Castro mandou povoar o interior de Sofala, porque na fortaleza só havia uma dúzia de famílias portuguesas, todas já mestiçadas ou de origem goesa. Em 1885 Gungunhana afirmava ao Conselheiro Almeida que a fronteira portuguesa passava a duas léguas de Sofala e para o interior o território era dele.

Em Angola a situação diferia um pouco, mas todo o interior pouco mais gente tinha do que um outro sertanejo como o famoso Silva Porto.

Na Zambézia, Portugal criou uma invenção curiosa: para poder arrecadar mais algum imposto passou a conceder “Prazos”, praticamente sempre a famílias mestiças e/ou também de origem goesa, mas neles não exercia nenhum domínio.

As lutas sustentadas contra os nativos não foram provocadas, até final do século XIX por lutas entre portugueses e africanos, mas por necessidade de apoiar um ou outro régulo afim de manter a paz no interior e assim o comércio poder fluir.

É o olho gordo dos ingleses que querem as melhores regiões de África para expandirem a sua “religião” comercial que provocam grande instabilidade. Estavam em plena revolução industrial e descobriram que só para cima de Moçambique havia mais de quarenta milhões de africanos que não usavam calçado nem camisa, o que pressupunha uma imensa possibilidade de negócio.

A partir daí, quando os portugueses, que tanto em Angola como em Moçambique sempre tinham precisado da autorização dos sobas e régulos para comerciarem, o que implicitamente reconhecia a soberania destes, a Conferência de Berlim, estimulada também pela ganância do rei dos belgas, determina que só ficam com direito a terras em África os países que os ocupem militar e administrativamente.

Virou-se o jogo. Agora eram os sobas e régulos que dependiam de Portugal, e isso foi um imenso desastre.

Portugal que até essa altura não admitia, sobretudo em Moçambique, colonizar esses “seus” territórios, começou a “vendê-lo” em parcelas. E mais, se não admitira nunca estrangeiros, teve que os ir buscar, porque, sempre pobre e endividado, não dispunha de capitais para desenvolver as “novas” colônias.
E assim nascem a Companhia dos Diamantes de Angola, com capitais portugueses (pouquíssimo), mas de maioria belgas, americanos, ingleses e sul-africanos, a Companhia Agrícola de Angola - CADA -  financiada por capitais belgas, em Moçambique as Companhias Majestáticas como a Cia. de Moçambique, Cia. da Zambézia, Cia. do Niassa, Cia. do Boror, todas com capitais estrangeiros, que quando viram que o negócio agrícola não era rentável, começaram a vender trabalhadores para as minas de ouro da África do Sul, e outras várias.

Depois lembrou-se de fundar o Banco Nacional Ultramarino, visando o desenvolvimento colonial, mas que se verificou ter sido um elemento de falência para os incautos e entusiastas que se lembraram de a ele recorrer para a agricultura.

Angola rendeu, sobretudo para os traficantes, enquanto floresceu a escravatura, em Moçambique lutava-se contra esse tráfico. O Brasil já independente teimava em traficar e, como sempre, os contrabandistas e desonestos, conseguem durante muito tempo ainda negociar, vergonhosamente, gente.

No século XIX e Portugal, sempre pobrezinho e mal governado, decide defender as colónias, sobretudo das forças de países europeus, e luta sobretudo contra os alemães.

As poucas e mal pagas e mal treinadas tropas da metrópole, auxiliadas por soldados africanos lutaram valentemente. Foi a época dos heróis, brancos e negros, que procuravam pacificar os territórios que lhe foram “oferecidos”!

O século XX abre os olhos da metrópole e começa a desenvolver-se Angola e Moçambique, já sem recursos a escravaria, marfim, ouro ou a imaginada prata, sempre por iniciativa privada, e não por ação e planificação do “reino”, que nem no pequenino espaço europeu se entendia.

Este surto de desenvolvimento, que cresce de forma importante sobretudo a partir do final da II Guerra Mundial, marca profundamente a economia dos dois países que, logo a seguir ascendiam à sua independência.

O que é inimaginável para qualquer outro povo é que o grande surto de desenvolvimento se dá com o começo da guerra colonial, a partir de 1961.

Em 1974 acabam as colónias.
Os 500 anos tão badalados sumiram na bruma do tempo.
Em todo o lado por onde andou Portugal deixou a sua marca própria de convivência, desde Cabo Verde a Timor, Malásia, Indonésia e Índia, e sobretudo em Angola e Moçambique.

Não foram 500 anos de ocupação ou colonização. É um sofisma chorarem os portugueses pelos cinco séculos que “perderam, assim como o é também dos africanos dizerem que sofreram cinco séculos de dominação.

Ainda hoje, em Angola o nome mais respeitado de governante daquela terra, incluindo todos os que vieram depois da independência, é o de Dom Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho.

Por Moçambique também passaram grandes homens: Mouzinho, Freire de Andrade, João de Azevedo Coutinho, e outros.

Os sofismados “500 anos” foram, isso sim, cinco séculos de muita vivência, convivência, apesar de haver páginas tristes, como sempre houve em todo o lado e, infelizmente, continuará a haver.
Cada vez que se falar em “500 anos
em África” devemos celebrá-los como sendo “500 anos a conviver” com irmãos mesmo que por vezes desavindos.

Eu estive por lá pouco mais de vinte.
E como guardo toda aquela África no coração.

12/07/2017